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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O ÚLTIMO ADEUS AO EX-DIRETOR DO JN, FREDERICO MARTINS MENDES

Frederico Martins Mendes (dt.) ao lado de Manuel António Pina

Tive a oportunidade de entrevistar ambos. 

Hoje, recordo a entrevista a Frederico Martins Mendes, ex-diretor do Jornal de Notícias. Frederico Martins Mendes morreu esta segunda-feira de manhã, no Porto. Corpo pode ser velado entre as 18 e as 22 horas, no Foco.

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1) Nome do entrevistado: Albertino Frederico Almeida Martins Mendes

2) Data de nascimento: 04/08/1938

3) Período temporal em que trabalhou no Jornal de Notícias: 1953 (Entrei aos 15 anos para ajudar o meu pai) a 2005 

4) Funções e/ou cargos assumidos no diário: Colaborador (ajudava o meu pai; a partir dos 21 fui colaborador da secção desportiva; repórter; redator; diretor adjunto e depois diretor)

5) Formação Académica: Licenciatura em Engenharia Químico-industrial

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6) O ano de 1945 foi terrível para o JN, com a medida mais gravosa de saudar a dívida resultante de um empréstimo bancário do diário. Ir pedir ajuda a um concorrente, Manuel Pinto de Azevedo, Primeiro de Janeiro, indicia um espírito de camaradagem entre os jornais concorrentes?

Espírito de solidariedade do Manuel Pinto de Azevedo e a amizade que tinha com o Diretor Manuel Pacheco de Miranda.

7) O I Governo Provisório pretendia a reprivatização do Jornal de Notícias. Este contudo viria a recusar, ou seja, o pessoal pretendia trabalhar sob a tutela do Estado, a ser empregado do setor privado. Foi aí que o Frederico foi o intermediário das conversações com o Ministro Almeida Santos? Porquê o Frederico o escolhido, no período de então? E porque seria gravoso para o JN passar a ser uma cooperativa, quando o ministro lhe declara que o JN está à porta da falência? 

Fui intermediário porque conhecia bem o então ministro que tinha ido fazer uma palestra ao jornal e fui eu que lhe mostrei o jornal tivemos sempre um contacto muito amigável. O Dr. Almeida Santos decidiu manter o jornal como público porque servia os interesses da população e assim defenderia sempre os interesses da mesma. O Dr. Almeida Santos interveio e o jornal manteve-se publico com apoio do governo.

8) Aspetos em que o jornal poderia ser sancionado: por exemplo esquecer de assinalar o aniversário do Presidente do Conselho...

Sim podia ser uma ofensa e a censura intervir e fechar o jornal. Tive ocasião deter de falar com a censura para que o jornal não fosse punido por causa de uma entrevista ao Marcelo Caetano.

9) O vespertino, A Tarde,: o regime queria transformá-lo num órgão da ditadura

Sim, o Dr. Sardoeira Pinto poderá explicar melhor.

10) Facto de muitos jornalistas terem ido fazer o ensino superior para Espanha

Não me recordo, sei que alguns se formaram na Universidade de Santiago de Compostela.

11) O JN apesar de ser um jornal nacional, desde sempre apostou nas páginas de caráter regionalista, “Norte”, a “Bairrada”… terá sido este fator decisivo na imagem de marca do diário?

Sim definitivamente! porque ficava ao serviço da população nortenha e aumentava a tiragem porque as pessoas se identificavam com o caráter pluralista e popular.

12) Durante as visitas de Óscar Carmona ao Porto, por exemplo, o facto de o Regime não permitir identificar, atempadamente, as visitas. Seria uma forma de “silenciar” a ala mais liberal? 

Sim porque tinham receio que ele fosse apupado e vaiado.

13) O Espaço reservado ao “Desporto” na década de 70 no JN era acentuado. Seria pelo facto de termos um público maioritariamente masculino no diário?

Sim, 

14) Muitos dos colaboradores do JN, como o próprio Frederico entraram para a área do desporto. Era essa a porta de lançamento da maioria dos jornalistas? (aqui pode desenvolver a história do seu pai, também ele ligado ao JN e certamente, recordar mais histórias que lhe chegaram por intermédio dele…)

Era porque o Diretor gostava muito de desporto. O meu pai entrou pela mão do chefe de redação Ramos que andou a estudar com ele na Escola Normal.

15) A importância da abertura das filiais JN – em 1957 (em Viana Castelo, por exemplo). Terá contribuído esta expansão para acentuar ainda mais o carater regionalista do diário, o dar voz às províncias da Região Norte?

Sim, o JN começou a sua expansão pelas regiões porque em Lisboa já havia muitos jornais diários, alguns deles já desaparecidos como O Século, mantém-se o Correio da Manhã…

16) Nota-se um certo distanciamento do JN em relação à Guerra Colonial. Fora uma posição unanime tomada pelo diretor de então, Pacheco de Miranda?

Foi uma aposição obrigada pela censura que exigia que se mandasse as provas de tudo que se referisse à guerra colonial.

17) Comissão de Censura à Imprensa do Porto (qual a sua relação com ela: circulares, telefonemas). Tipo de relação com os coronéis: (Relação de cordialidade…) 

Apenas relação de cordialidade, atendi várias vezes a comissão de censura e a minha posição pareceu-lhes tão parcial a favor da democracia que fizeram queixa ao diretor mas não foram além disso porque um dos elementos era pai de um antigo colaborador do JN.

18) Tendo trabalhado no JN no período salazarista e marcelista, encontra diferenças de atuação da censura prévia, ou apenas mudou o nome da mesma?

Apenas mudou o nome, de resto as instruções eram do mesmo teor.

19) Os problemas pelos cortes de última hora: aparecer notícias de desporto na secção política. Como funcionam os chaços, eram os jornalistas que trabalhavam com eles ou era já na gráfica.

Aparecerem notícias de desporto na secção política era possível ser engano dos paginadores a trabalhar em chumbo, quando eu me apercebia disso era uma risota com o chefe da tipografia! 

Os chaços eram notícias que não pediam oportunidade para outras edições e serviam para tapar buracos nas páginas, que era um trabalho moroso e difícil naquele tempo.

20) O JN tinha a filial em Lisboa. Como era a relação com a mesma? Notava-se uma divisão NORTE-SUL acentuada?

Não era uma relação de amizade e camaradagem, fui eu que telefonei para casa do Artur Alpedrinha, chefe da Filial a dizer que a revolução dos cravos estava na rua e que mesmo à beira do JN no Quartel do Carmo os tanques acumulavam-se.

21) O facto de se proibir o JN de fazer inquéritos à população, sobre a política ultramarina, a agitação estudantil era uma forma de “silenciar” o que de mal estava no nosso país. Seria difícil construir reportagens, sem se poder ouvir a opinião dos populares de forma direta?

Sim porque as pessoas mais envolvidas na luta pela democracia tinham receio de dar o nome e sem o nome as notícias não valiam de nada.

22) Sentia que havia dificuldades de entrevistar diretamente o Presidente do Conselho, Caetano, quando este vinha ao Porto? 

Sim porque ele era sempre apupado e vaiado, o Porto gaba-se de ser uma região de liberdade.

23) A edição internacional do JN começava a ganhar fôlego na década de 70. Porém não resiste ao 25 de Abril? O que terá se passado?

Porque havia países onde a censura ainda existia e portanto só o desporto é que atraia a atenção dos imigrantes.

24) Na final da campanha eleitoral de 69, o JN discordava da ideia de se transcrever na íntegra as entrevistas de Caetano na RTP. Começava a desenhar-se as barreiras entre a propaganda e a notícia?

Sim.

25) Como classificava a relação do JN com o assessor de comunicação de Caetano, Jorge Rodrigues. A este não lhe interessava órgãos demasiado favoráveis ao regime. Uma clara estratégia de marketing político?

Sim.

26) Década de 70: 3 a 4 máquinas na redação do JN. Como era um ciclo de produção de um jornal JN? (Hora de redação das notícias manuscritas, para depois serem enviadas tipografia (aí permaneciam x horas, para ser tudo batido à máquina…)

As notícias de desporto tinham de ir tarde e contribuíam para o atraso, as notícias demoravam na tipografia 30m a 1 hora porque os tipógrafos não tinham todos a mesma agilidade e conhecimentos. 

27) Por que razão, quase todos os textos não eram assinados nesta época? Quase só apenas no espaço de opinião ou grandes reportagens. Era algo definido pelo próprio jornal?

Era uma regra definida pelo conselho de redação e pelo diretor. Não fazia sentido assinar notícias pequenas e de última hora.

28) A distribuição dos jornais: terem de fazer caminhos sinuosos, quem chegasse primeiro, vendia, primeiro. Os ardinas recebiam à comissão pela venda? Como era assegurada a rede de distribuição de então? 

Quando o jornal estava terminado saia uma frota de carrinhas que levavam as edições para as filiais, os ardinas ficavam à espera e compravam a quantidade que desejavam e recebiam comissão (julgo que 5%).

29) O público comprador: (baixos níveis de alfabetização: quem eram os primeiros compradores dos jornais (homens que andavam nas comezainas e regressavam a casa)?

Sim.

30) A questão da auto-censura que o jornalista foi desenvolvendo com o passar do tempo. Sentiu dificuldades de adaptação no pós 25 de abril.

Não.

31) Variações salariais entre o período em que trabalha no JN – a direção seguia as normas do contrato coletivo de trabalho. “Em 1970, o JN pagava já acima do que viria a ser estipulado em 71”. De uma maneira geral como foram variando os salários, quem ganhava mais e menos na redação (categorias profissionais)

Quem estabelecia as normas era o Conselho de administração a que presidia o diretor ou uma personalidade por ele nomeada. Pagava mais prque as tiragens estavam a crescer, o estagiário era o que ganhava menos, depois o repórter e depois o redator, o subchefe de redação e o chefe de redação.

32) Inicialmente baixos salários, faziam com que houvesse acumulação de profissões. Fez isso? Se sim, que funções acumulou?

Eu na altura não acumulava só mais tarde dei aulas na escola de jornalismo. Havia pessoas que trabalhavam em 2 e 3 locais acumulando os vencimentos mas obviamente que a sua subida na escala redatorial era limitada por essa circunstância.

33) A ligação do jornalista: havia um período experimental de 4 meses: o estagiário só não ficava no jornal se não tivesse qualidades. A partir de que altura, o ciclo de estudos é fundamental para ingressar no jornal?

Se o estagiário tivesse um curso superior a entrada era aprovada pelo conselho de redação, esta decisão quanto aos estudos foi do diretor a partir de meados de 70 ou 80, não me recordo.

34) Construção do livro de estilo JN na década de 60 que contemplava já normas éticas. Sentia que havia vontade de cumprir essas regras na redação?

Sim porque escrever um nome com minúscula era um erro completo.

35) Como era a relação entre colegas (espírito de interajuda) - Forma de tratamento entre colegas “camaradas”

Havia um grande espirito de interajuda, os diferendos eram sempre exteriores ao JN que pendiam de convivências pessoais.

36) Havia jornalistas que aceitavam dinheiro para publicitar através de entrevistas/ reportagens (qual era a posição da direção do JN em relação a isso)

A direção desconhecia e quando chegava a saber punia os jornalistas com 3 meses a 1 ano de suspensão expondo o caso ao sindicato dos jornalistas.

37) A intrusão nos conteúdos por Manuel Andrade de Sousa

Acontecia várias vezes por ser acionista. 

38) Ainda nos anos 60, o jornal sofre um crescimento superior à sua capacidade. Quais foram as orientações da direção no sentido de cada vez mais haver a necessidade de se responder a um maior público-leitor? 

Modificar a ordem de paginação e ir buscar a outros jornais jornalistas de renome.

39) A Comissão Ad-Hoc e a posição do JN à mesma.

Não me recordo desse período, mas o JN não deixava silenciar qualquer notícia a não ser que fosse uma ordem da censura.

40) Diferenças salariais e horários no pós 25 de abril (grandes discrepâncias, para melhor ou pior?) 

Para muito melhor porque a liberdade de noticiar trouxe muito mais rendimento das vendas.

41) Como foi a cooperação dos jornalistas do JN com os media internacionais que cá vieram fazer inúmeras reportagens?

Muito boa especialmente da minha parte co os jornalistas brasileiros e franceses que conhecia dos congressos internacionais.

42) A 4 de setembro de 1974, todos os jornais à exceção O Século, suspendem a sua publicação em solidariedade com a demissão do diretor O Comércio. Eram acentuadas as perdas da não publicação de um jornal?

Sim.

43) No seu entendimento, quais foram as posições ideológicas assumidas pelo JN no pós 25 de abril (quebra das receitas de publicidade)?

Não pelo contrário, e a maior parte dos jornalistas que eram liberais aceitou as normas institucionalizadas pelo Conselho de Redação.

44) O JN tinha uma rede de informadores notável – perseverança de não se descurar telefonemas. Havia quem preferia fazer queixa ao JN do que à polícia. Será essa rede, uma vez mais, justificativa de um jornal de cariz popular?

Sim porque o JN ia averiguar e a polícia muitas vezes só tomava nota sem agir.

45) E em relação às notícias que chegavam da GNR. Eles ligavam, noticiavam apenas o que interessava…

Claro como as apreensões de carta os excessos de velocidade que efetuavam decorrentes das rusgas nas estradas.

46) A concorrência apelidava o JN: “o jornal das sopeiras e dos magalas”. Que sentido atribui a tal designação (pejorativo, ou pelo contrário, vinha reforçar a sua ligação ao povo)

Por um lado pejorativa para os jornalistas mas aceitável pela administração porque via os rendimentos aumentar.

47) Como era o funcionamento do JN em pleno PREC: houve ou não no seu entender radicalização no jornal? E o papel dos tipógrafos durante esta fase agitada?

Houve alguma radicalização e os tipógrafos tiveram a liberdade de protestar os baixos vencimentos que auferiam.

48) O facto de o jornal ser conotado com o Partido Comunista, levou a que a edição fosse queimada em Vila Real (Pravda). Como analisa esta situação?

Era uma falsa questão porque o JN nunca foi comunista apesar de haver pessoas que tinham esses ideais, como o César Príncipe.

49) Como vê hoje o diário, quando equiparado ao tempo em que lá trabalhou?
Houve grandes mudanças, especialmente de natureza gráfica traduzida na 1ª página e no alinhamento da paginação.

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