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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SMART OR NOT SMART?

GABRIEL VILAS BOAS
Dizer que o telemóvel é a imagem de marca dos nossos dias talvez não seja uma ideia assim tão disparatada, pois já é difícil encontrar alguém que voluntariamente o dispensa. Possivelmente até nem devíamos falar de telemóvel, mas antes de smartphone, uma maravilha tecnológica que nos permite estar, permanentemente, online com o mundo, mas completamente offline para aqueles que, afetivamente, nos são próximos. 

O smartphone mudou o estilo de vida das pessoas. Acho que, na maioria dos casos, capturou o nosso dia a dia totalmente. Usamos o pequeno computador de bolso, essencialmente, para nos divertir. 

Desde que o acesso à internet se tornou mais económico, o telemóvel inteligente é um passaporte para um mundo maravilhoso e virtual, que muitas vezes pensamos ser exclusivo, secreto, recortado à nossa medida. Sem grande esforço, ouvimos música, vemos um trailer, espreitamos as últimas notícias, apreciamos dezenas de fotos, pomos em dia o “pecado” da cusquice, deixamos uns “likes” ou um apontamento no facebook, resolvemos pequenos problemas por sms ou por telefone. Tudo isto com a enorme vantagem de quase ninguém dar por nós. O smartphone permite uma atuação discreta que agrada muito à maioria dos seus utilizadores. 

Virtualmente, um aparelho, de quatro ou cinco polegadas, torna-nos parceiros de várias histórias emocionantes, pseudo decisivas e, por vezes, secretas.

O smartphone faz muito pela nossa autoestima diária. Tê-lo, usá-lo, disfrutá-lo é estar “in”, é ser ativo, considerado, moderno. As suas vantagens são inquestionáveis e derrubam a tradicional argumentação dos velhos do Restelo. Claro que aproxima as pessoas distantes, claro que facilita imenso a comunicação de dados e informações, claro que torna a vida mais aprazível…

Não vale a pena culpar o telemóvel (ou o smartphone) pelas entorses que o seu uso causa em muitas vidas porque ele não tem culpa nenhuma.

Obviamente é sempre mais fácil culpar um objeto pela nossa falta de tempo para os filhos, pelo alheamento nas reuniões familiares ou nas conversas, pela superficialidade no trato, pela violência verbal descontrolada, pela falta de foco nas tarefas, pelo ar enjoado ou irritado com que nos dispomos a ouvir o(a) companheiro (a). É bem mais fácil, bem mais cómodo, bem mais cobarde!

Ainda que detestemos a ideia, estamos a ficar viciados no smartphone. Ele tornou-se uma dependência psicológica, afetiva e física. Como qualquer viciado, negaremos até ao limite essa dependência, mas isso só adia e aumenta o problema de cada um. 

Tal como acontece com as baterias dos telemóveis, o excesso de uso vicia-nos de tal modo que vivemos cada vez menos. Em pouco tempo, as maravilhas reais e virtuais do mundo e das pessoas deixarão de ter interesse para nós e até o bendito smartphone perderá encanto.

Habituados que estamos a encontrar fora a culpa dos nossos erros, culparemos, então, o smartphone, que rapidamente passará a ser “pig” ou “ugly”. Pode ser que, entretanto, surja nova droga que alimente o ego e o desejo e faça deste “mais do que tudo” apenas o ex. mais do que tudo. Correremos então para esse novo elixir da juventude, convencidíssimos que “esse é que é”.

O smartphone olha para mim novamente. Sorri sarcasticamente. Enquanto escrevia este texto, peguei nele três ou quatro vezes, todas elas desnecessárias. Se pudesse falar, talvez me dissesse:


«I’m smart, but you not… yet»

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