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sábado, 29 de novembro de 2014

APRENDIZAGENS ELEMENTARES

J. EMANUEL QUEIRÓS
O homem realiza-se no pensamento e na palavra se materializam as suas referências e propósitos. A opinião é uma das fórmulas de exprimir o pensamento pela palavra oralizada ou escrita, mas o pensamento, em que a palavra se funda (ou afunda) e onde ganha sustentabilidade, pode tomar impulso em impressões, sugestões, compromissos e emoções. Pode ser portadora de valores, construtora de pontes, indicadora de rumos… 

Constituindo uma expressão de liberdade resulta sempre de algum vínculo a sistemas culturais e sociais onde vigoram aprendizagens informais e formais perpetuadoras de tradições, mitos, preconceitos e interesses, com uma proeminência mais ampla e mais elementar.

Todo o tempo de vida é tempo de aprendizagem, mesmo quando as escolhas mais comuns não vão no sentido esperado pelos outros, e, nessa medida, podem criar surpresa e incómodo no grupo social mais próximo ou no mais lato. Todavia, o indivíduo, o homo humanus de que falava Martin Heidegger, só se realiza plenamente projectado no mundo quando esse mundo lhe concede a liberdade para o «ser», de pleno direito, conquistando a sua própria «humanitas». Essa propriedade, intrínseca ao homem «projectado de sua essência» em que o mundo é a sua própria «clareira», está presente em todo o indivíduo redescoberto na Terra em assumido compromisso consigo mesmo, mais do que com qualquer vínculo societal que por mero valor antropológico lhe possa ser circunstancialmente atribuído como por definitivo. 

Na realidade, nada neste mundo é definitivo, nada nele permanece imutável ou inalterável, mesmo que assim sugira ou pareça ao nosso imprevidente olhar.

Vem a matéria a propósito de um tema actual, recorrente, que se prende com a actuação comum de indivíduos tendencialmente integrados em grupos condutores das sociedades e dominados por eles, herdeiros de uma prática política de revanche, remontante ao não raciocinado instinto de defesa grupal que, na sua versão história mais acirrada, encontramos patente na Igreja do Renascimento com a perseguição aos hereges colocados às ordens da Santa Inquisição. Se assim foram perseguidos e assassinados na praça pública por heresia cidadãos inocentes só porque não se submeteram aos ditames da verdade oficial, presentemente tem vindo a perpassar uma tendência de semelhante ordem de valores e que se espelham nas tentativas de condenação pública categórica de cidadãos que, por razões equívocas, encontram e assumem seus rumos próprios sem abdicar do exercício dos seus direitos cívicos e políticos. 

Os tempos correm velozes e é genericamente manifesta a pouca disponibilidade que concede às pessoas para reflexão fora dos preconceitos, dos quadros mentais comuns e das ideias preconcebidas e transmitidas nos grupos. Ainda é mais relevante o facto quando, por via do vínculo a alguma instituição cívica, partidária e política, os indivíduos se mobilizam na forma de estar comum para dizer o que todos no grupo gostam de ouvir. Torna-se ambígua, deficitária e débil esta forma de realização do indivíduo como «ser», procurando no mundo a desocultação da sua própria humanidade, ou como homo humanus, embora possa ser reconhecida e premiada no contexto grupal, tal qual a forma comum de reconhecimento pelo feito em que o grupo se sente resguardado e protegido.

Desde há muito, venho observando e tento perceber como nos grupos político-partidários se manifestam simpatias, abrotoejas, afectações e sectarismos travados nos meandros do poder. Manifestamente não simpatizo com essa forma de estar nem com esse comportamento colectivo dimanado pelos homens das instituições partidárias que tendem a segregar, excluir e a humilhar, ainda que por palavras, quem pensa por sua própria cabeça. 

O poder e a sua conquista parecem configurar uma oportunidade para alguns absurdos ajustamentos de contas. Sugere atribuir toda a razão do mundo aos conquistadores e parece querer conferir o direito a interditar, humilhar e até excluir quem tem pensamento próprio. No entanto, isso acontece como reflexo instintivo consequente quando o poder é tido como fim último da acção política e nessa medida condiciona seus actores, impedindo-os de vislumbrarem algo mais edificante e menos manicaísta com a sua própria conquista, sem a pretensão da obtenção de unanimismos fictícios, federacionismos tutelares de grupos ou de regimentos.

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