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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

UM CONCERTO SILENCIOSO

GABRIEL VILAS BOAS
DR
Há dois dias, milhares de escolas assinalaram o Dia Mundial da Música. Com maior ou menor exuberância, o som das flautas, do piano ou das violas fez-se ouvir e por momentos muitos de nós podemos percecionar quão bem faz à alma tocar um instrumento, sentir o delicado toque da melodia invadir-nos, qual amigo que, inesperadamente, nos entra casa dentro.

Neste mesmo dia, os alunos do Conservatório de Música de Lisboa gritavam em frente ao Ministério da Educação “Queremos aulas”. Protestavam contra o facto de o ano letivo ter começado há mais de duas semanas e ainda não haver professores no Conservatório. Crato não se dignou descer, vir junto deles e dar-lhes uma justificação, um pedido de desculpas… nada. Mas devia! Estes alunos deixaram de ter aulas há mais de três meses e nesse período o ministério da educação não conseguiu determinar as poucas dezenas de professores necessários para ensinar música de uma maneira especializada aos nossos alunos.

Não conseguiu, porque não quis! O problema não é da máquina, que todos sabemos que não se engana, mas de quem determina que se atrase e erre com um sentido de oportunidade tão cretino que não merece perdão.

Crato, que gosta de ir ao aeroporto receber os medalhados em concursos de matemática, é atroz ao esquecer o ensino artístico e desumano ao desprezar a educação especial. Ter-lhe-ia feito muito bem ter descido do seu gabinete ministerial, enfrentado aquelas estudantes que querem professores de música que os ensinem. Talvez o presenteassem com um concerto e, miraculosamente, algumas gotas de beleza sonora atingissem a sua fraca sensibilidade. A música já fez muitos milagres, podia ser que acontecesse mais um…
Todavia não deixa de ser humilhante que os nossos filhos tenham de pedir por favor que lhes ensinem a tocar, a dançar e cantar; que lhes permitam usufruir dos mestres da pintura ou contactar com os magos do palco. Para o nosso ministro da educação, isso são devaneios tontos duma população que não deve aspirar a tanto. Um pouco à imagem desse grande guru da economia nacional, César das Neves, que disse ser “criminoso aumentar o salário mínimo nacional”.

Na verdade, o MEC não projetou pagar mais de nove meses de salários a alguns milhares de professores portugueses e portanto vai fazendo correr o tempo, com manobras dilatórias ridículas de colocação de professores, combinadas com uma incompetência tão grande que até o mais acérrimo crítico não acredita. Os professores do ensino artístico são um alvo bem escolhido, nesta estratégia pérfida e triste, pois são poucos e o mainstream nacional não tem nível cultural suficiente para perceber a sua importância.

No entanto, os alunos que esses professores formam são a alma de muitas escolas. Estudiosos, interessados, aplicados, os alunos do ensino artístico amam aquilo que aprendem e constituem uma fonte de inspiração para muito dos seus colegas.

Deixem-nos tocar, dançar, pintar, representar… ou como diria o outro “deixem-nos trabalhar”!

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