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sábado, 25 de outubro de 2014

O PODER DO DESEMPODERAMENTO

J. EMANUEL QUEIRÓS
Fizemo-nos humanos perante o mundo, integrando heranças e adicionando descobertas processadas diante da nossa própria solidão. Todos membros de uma só Humanidade, cada um por si com a sua experiência, fazendo a ‘via dolorosa’ em diferentes estações e em estádios diferenciados de evolução mental e consciencial. 

As humanidades estão com o Homem, são propriedades intrínsecas ou faculdades que residem em cada um. A sua descoberta e o sentido prático do seu uso cabe a cada um encontrar e não há doutrina capaz de substituir a experimentação individual, nem regra que bem conduza o indivíduo na sua liberdade de realização, sem submissão por desconhecimento. A experiência processada faz do indivíduo, simultaneamente, laboratório e cientista, se para tanto ousar operar com a dúvida como fase metodológica orientada para o esclarecimento e a descoberta cartesiana.

A vida, na forma e no contexto, não é a constância inevitável como a apreendemos. Nem a organização social e o mundo humano são senão grandes ilusões colectivas construídas no artificialismo em que se perpetuam hierarquias e poderes mundanos talhados na conveniência de uma derradeira ordem castrense e beligerante. 

Todos estamos operando como ferramentas de garimpo para algum empossado imperador, feito senhor da terra e guardador de rebanhos. Todos contribuindo para algum desígnio temporal fortuito, dominados nas crenças, nas emoções, nas tradições tribais ou nos preconceitos grupais de que ‘assim é porque assim tem de ser’. Circunstâncias formais para aceitação do indivíduo regulado pelo padrão comum e para a emissão tácita de visto à inclusão. Todavia, permanecemos quase todo o tempo distantes da realidade do mundo e desencontrados de nós mesmos.

As vulnerabilidades individuais e as fraquezas dos homens com que nos deparamos são constantes e estão generalizadas. São patentes em qualquer circunstância da vida comum em sociedade, hoje sustentada em habilidades intelectuais treinadas nos bancos das escolas desde as mais precoces aprendizagens. A constatação aponta para uma dimensão da natureza humana latente, sustentada na ausência de atendimento e em permanente estado de ocultação. Sendo susceptível de não ser atingida pelo processo de ensino/aprendizagem, faz crer que a educação que nos é oferecida em processo familiar e oficial corrente e as insistentes aprendizagens comuns serão meras artimanhas de um sistema orientado para a manutenção de uma vil hierarquia de poderes que nos tem como seus acríticos serventuários e suas convenientes vítimas.

Somos individualidades que nos reconhecemos nos meios sociais em que aportamos, nos modos de estar no mundo e nas idiossincrasias, em resultado de um contínuo e prolongado processo de aprendizagens sócio-culturais formais e informais. Neles adquirimos saberes convencionados, divulgados e comuns, onde outros são mais restritos, associados a segmentos profissionais, todos conferindo algum domínio de conhecimento, de sabedoria e de poder. 

Contudo, no nosso mundo tangível também há um lado desconhecido, fisicamente perceptível, enorme, mas que a crença e a cultura humana preconceituosamente têm feito por ocultar, por conveniência da ordem estabelecida, que as ciências ignoram ou ridicularizam por desconhecimento e que o senso comum se ocupa de escarnecer.

Se o conhecimento é um poder conquistado pelo homem em seu próprio proveito, como instrumento do seu bem-estar e da sua auto-descoberta, o desconhecido e a sua manutenção é um vastíssimo campo de poder de desempoderamento que condiciona o indivíduo pelo medo que infunde, pelo jugo da limitação e pelo modo subtil de submissão em que silenciosamente opera.

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