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terça-feira, 28 de outubro de 2014

O GÉNIO E O EMBUSTE

REGINA SARDOEIRA
Vivemos num tempo e num mundo – cá estão os omnipresentes tempo e espaço, sem os quais, enquanto humanos, perderíamos referências – marcados por um acirrado individualismo, sinal intrínseco daqueles que ocupam todo o lugar disponível, sem deixarem uma hipótese, sequer, de lugar para o outro. O outro só entra, no círculo que à volta deles traçaram, se acaso lhes interessar, enquanto admirador, ou dele precisar de extrair benefício. 

Cada um opina, sentencia, prescreve – e aponta o dedo para si, como se fosse o exemplo. E exibe-se em todas as montras do mundo, ostentando o que acredita serem vantagens e usando os meios disponíveis para captar um séquito de discípulos. Se o vulgo contabilizar as atenções prestadas ao dito exibicionista, e vir que são da ordem das centenas, dos milhares, dos milhões – consoante o universo exibicional – julga que deve segui-lo, pois tantos não podem estar enganados e quem é ele para se opor a cem, a mil, a um milhão de adeptos? E eis que o opinador, sentenciador ou prescritor se vê aplaudido por tantos e tão variados, que começa a acreditar no evidente e inquestionável brilho do seu génio.

Assim se explica que a mediocridade alastre e vá ganhando um território, cada vez mais extenso, a tal ponto que o pobre lúcido que devassa os feitos desse que é aclamado e elevado aos píncaros, e nada encontra, nele e na sua obra, de notável ou sequer de mediano, mergulha em profundo solipsismo e constrói para si uma fortaleza de ensimesmamento.

Esta mediocridade revestida de talento, ou grandeza, ou génio, este séquito de gurus e de estrelas e de famosos que, nada fazendo de extraordinário, ditam as regras do mundo, alastram em todos os campos possíveis.

Ali, pontifica um astro da política, um analista, um comentador. Nada diz de extraordinário, nada analisa que tenha valor, de facto, e os seus comentários mal atingem o lugar-comum. Mas dia após dia, mês após mês, entra-nos em casa e opina, analisa, comenta. E o vulgo, incauto, pensa: quem sou eu, pobre anónimo, neste aglomerado de talentos, para sequer arranhar a superfície de tão emérito palrador?

Além, perfilam-se os escritores, os ganhadores de prémios, os campeões da edição, os corredores de grandes maratonas de sessões de autógrafos e de apresentações. Mas, quando se pega nos livros para começar a ler, um enorme desgosto, uma verdadeira e triste deceção obrigam o real conhecedor a cerrar as páginas, angustiado e triste. Mas eles, todos esses, que se sentam em auditórios, bibliotecas e feiras e aplaudem, são engolidos no logro e, se acaso veem o erro estampado nas páginas, eis que consideram que não será erro, mas criatividade, que não será logro, mas engenho!

Mais adiante surge o artista plástico, o pintor, a espalhar arabescos e borrões pelas telas, a criar monstros e aberrações, deformando rostos e corpos, tecendo uma enorme confusão, mascarada de profundidade, mas sem sombra de talento ou de técnica. Expõe e faz o seu próprio panegírico. E de novo, o vulgo, distraído e pouco preparado, arregala os olhos e proclama, Deve ser bom, embora eu não compreenda! E gostam, todos esses ignorantes, de vaguear por galerias e museus, embasbacados, e, se puderem, compram o original ou a réplica e ostentam a preciosidade na sua parede principal.

Mesmo nos campos de jogo, onde meia dúzia de pontapés certeiros, muita manha, cotovelada e empurrão decidem o talento e afirmam a genialidade, feita, quase exclusivamente, de um intenso e exclusivo trabalho de treino, as reputações são erguidas ou atiradas ao chão, e a estrela do pontapé e dos músculos é apontada como exemplo a seguir e, se os houvesse ainda nas cabeças, todos os chapéus seriam tirados, quando eles passam, orgulhosos, nas avenidas do mundo!

E os modelos das passerelles? Falo, não dos homens e mulheres amaneirados, que desfilam como se, naquele ato, houvessem sido guindados à categoria de ícones, mas das roupas e acessórios que os fazem usar, dos ares sisudos ou enjoados que lhes mandam ensaiar, dos truques de sedução com que os levam a menear o corpo e a expor intimidades. Esses, nada tem de modelar, nada exibem que valha a pena copiar, mas o espectador, desprevenido, confunde aqueles lamentáveis espetáculos, com beleza, aquela triste e degradada atrocidade, com criação e mérito e não ousam revelar a plenos pulmões que, afinal, «o rei vai nu»!

Ser-me-ia possível continuar e falar dos concursos de culinária, em que os «chefs» combinam e misturam e temperam e trituram e mexem e dão conselhos e no fim autoelogiam-se, falando das suas criações, como sendo, nada menos, que produtos perfeitos, delícias para os mais refinados palatos e provam e estalam os dedos…e, do lado de cá, o espectador nunca poderá saber se o prato, acabado de fazer, sabia bem ou se o criador se enganou nas porções e prova, afinal, um repasto intragável! Ou então, referir o exemplo de todos aqueles que cantam, sem de facto cantar, que compõem música sem fazerem a menor ideia do que tal significa, dos que representam nos palcos e nas telas, retirando todo o sentido às personagens e à arte, porque nada sabem transpor de si para aquele a quem deveriam conferir uma nova vida…mas parece-me que ilustrei o tema, parece-me que bati no ponto!

Vivemos numa era de ilusão, num universo de mentira e deturpação, numa amálgama de falsos talentos e falsas obras de arte, levantados aos píncaros, vivemos horas terríveis de vazio e de ausência de critérios, em que é praticamente impossível discernir o bom e o mau, o medíocre e o genial, o que deve ser seguido e o que deve ser esquecido instantaneamente. A História – esse outro mito, mas, afinal, o repositório de tudo o que tem valido a pena no mundo – fará a sua justiça, mais tarde ou mais cedo, e dará ao génio o lugar que merece, retirando protagonismo ao embusteiro.

Não quis ser pessimista com este retrato pouco abonatório dos critérios, se é que existem critérios, com que se erguem e se afundam reputações. Sei bem que anda por aí o talento, o génio, a sabedoria, a técnica e que, no meio de tantos ardis, se ocultam os artífices supremos e os guias do nosso tempo. Conheço alguns deles, oiço-os, leio-os, vejo-lhes a obra. Mas, em simultâneo, percebo o pouco lugar que eles preferem ocupar (se acaso existisse algum!), vejo como se distanciam das pompas e das multidões, percebo como aderem à humildade e à solidão. 

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