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domingo, 5 de outubro de 2014

NO LADO DE LÁ DO CHÃO

MIGUEL GOMES
DR
Não vou pensar nas voltas que dou em torno do eixo deste planeta. Hoje, ainda que adormecido, serei centro do que me rodeia, enquanto todos vociferam e, sem o saberem, desesperam.

A vida pertence à vida, eu que o viva, se vivo sou, para ser o local onde não estou e chegar lá sem me conhecer.

Somos aquilo que sabemos ser, ainda sem antes nos debruçarmos sobre o parapeito, por entre as cordas e o colorido das molas no estendal despido.

Seco transpirações e aquilo que me obrigo a vestir.

Tacteio teclas sem emitir notas, apenas o desejo de te ver atrás desta parede, adormecer, dormir, dormires e eu ser teu, sem nunca partires. 

Não entres tão depressa no sonho, pouco me resta que o travo e aroma indistinguível de um medronho, sem embriaguez, sem qualquer cálice para onde escorrer a seiva, sem um carreiro, uma leira, para onde me dirigirei quando enfim me diluir... Eu, que nem sei para onde estás a ir.

Gosto de enganar o destino e caminhar cabisbaixo umas dezenas de passos, para depois olhar o céu de repente e ver uma pequena estrela luzidiamente cintilar enquanto uma nuvem juvenil e arisca tapa momentaneamente a luz do Sol reflectida na Lua.

De quando em vez uma flor inclina-se ostensivamente ao caminho e sussurra, sou tua.

Caminharia ad eternum, não fosse a omnipresença destino percorrido imemorado.

De obstáculo em precipício caminha um par de gente. Cegos, ninguém diria perfeitos, dobrando a escuridão sem medo, lado a lado.

Tento encriptar os murmúrios, mas de mim, que gosto, apenas a superficialidade de um profundo que não se conhece parece ser tudo o que neles acontece.

Enganou-me o destino, ao passar por mim cabisbaixo e atirar uma mão cheia de nada dizendo, eis o que de ti te salva, segue-te intuitivamente, os cardápios querem-se de madrugada.

Estafado, passo as costas da mão pela testa, limpo a boca arrastando os lábios pela manga da camisola e atiro um sorriso à gota de suor que caiu entre duas palavras formando uma vírgula personalizada.

As letras estão no forno.

A porta lacrada com dias preparados pelas minhas mãos quando aprendia a escutar.

O vento refresca-me quando coloco a cabeça fora do postigo e leva em movimentos errantes alguns pensamentos que andavam a germinar no resto das sementes empoeiradas.

Se chover e o olfacto for buscar odores a terra orvalhada, terei palavras prontas a cortar e letras a servir.

Falta-me um tição para avivar o lume e talvez por isso a cozedura ou assadura demore mais que o desejado.

Repousem no ventre aquecido, ainda que não escritas, o parágrafo não será esquecido.

Enrolo-me em mim, deixo-me levar pelo cansaço de me fingir acordado e colho-me então, quase maduro, no lado de lá do chão.

Se fossem vós, letras, meu pão... Mas há espaço em mim apenas para mais um ponto de interrogação.

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