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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

EM BUSCA DA FAMA

ANABELA BORGES
DR
Chegados que estamos a uma nova temporada do antro de imundície que é a “casa dos degredos” – a casa onde há listas de espera para entrar, para, metidos lá dentro, os chamados participantes-jogadores-de-estupidezes-e-porcas-misérias-de-meter-nojo-até-às-pedras-da-calçada, mostrarem ao país um conjunto de gente do mais culturalmente pobre, obsceno e sórdido que pode haver.

Metidos que estamos em tempos de impiedosas futilidades e presunções, num mundo em que cada um faz de tudo por chamar as atenções sobre si (mesmo muitos-tantos que o fazem de forma aparentemente mais discreta), onde cada um quer fazer valer o seu ponto de vista de forma aguerrida, muitas vezes botando ridiculamente as garras de fora, tantas vezes sem qualquer importância ou fundamento, tantas outras vezes sem um pingo de consideração pelos outros, porque-eu-penso-assim-e-o-meu-umbigo-também-ponto-final. Tantas outras vezes ainda, essas mesmas pessoas logo a defenderem pontos de vista diferentes, pois, afinal, é preciso andar de acordo com este e com aquele, para fazer parte da manada.

Ainda bem que não somos todos assim. Ainda vejo muita gente que se abstém de entrar em joguinhos de lambe-botas, muitos que pensam de forma independente, com a sua cabeça, os seus valores, as suas convicções, expressando-o com frontalidade e naturalidade. É certo que estes podem estar tão errados quanto os outros (pois assim é, falível e redutível, o campo do pensamento), mas são os que poderão empreender alguma coisa que valha ao futuro, enquanto que os outros, na sua tentativa de apanhar carruagens de carneirada vistosa, onde possam caber a qualquer custo, mesmo que lhes fique o rabo de fora, nada trazem que valha ao andamento disto, que são os nossos dias, para coisa melhor.

Desde pequena que ouço dizer que “cada um faz a cama onde se deita”. E também se diz por aí que “a fama tem asas”. Será. Por isso, fui à procura de saber o que pensariam jovens de 13/14 anos sobre o assunto. E cheguei à conclusão que, quando confrontados com um desafio que os leve a pensar por eles – eles sentados, com uma caneta, em frente a uma folha de papel em branco –, até são capazes de dizer umas coisas acertadas. O problema é, de facto, sempre que estão metidos na manada, que aí parece que deixam de ter miolo para pensarem por si.

Foi-lhes dada a seguinte instrução: “Desde sempre, a busca da fama tem impulsionado as pessoas a ir mais além… Porém, nunca se falou tanto em fama como na actualidade. Há jovens que sonham ser o novo Cristiano Ronaldo, outros aspiram a ser actores famosos ou cantores de sucesso. Há até concursos televisivos, nos quais quase tudo é permitido para se ser uma celebridade instantânea…” (trata-se de uma questão que saiu aqui há uns anos no exame nacional).

Peguei no texto de uma aluna que diz assim:
“[…] até já existem programas para tornar as pessoas famosas. Mas para quê?
[…] entre as desvantagens da fama instantânea, destaco: a pessoa famosa não conseguir levar uma vida normal, visto a imprensa estar sempre em busca de falhas, deslizes, escândalos; começar, de facto, a levar uma vida de excessos – perder tudo em gastos, no jogo (é possível); consumir drogas e álcool (acontece muito), e, pior que tudo, morrer devido a esses excessos. Também não é novidade que muitos famosos perdem a humildade (se tinham alguma) e tornam-se pessoas arrogantes e indiferentes aos outros.
No mundo da fama nem tudo é um mar de rosas, por isso se pensarem em aventurar-se numa decisão nesse campo, desejo-vos boa sorte.

Outros alunos, nos seus textos, referiram aspectos importantes a salientar aqui:

- que acham muito bem que as pessoas procurem os programas televisivos, se querem alcançar a fama, se isso as faz felizes – alguns referiram até que talvez também estejam interessados em alcançar a fama por essa via (é nossa obrigação abrir-lhes os olhos para o problema maior que poderão defrontar mais tarde ou mais cedo: desilusão);

- que tanto lhes fazia se as pessoas queriam ser famosas ou não, isso será problema delas (estes são os que assobiam para o lado, esquecendo-se que os problemas são de todos, e é bom ter uma opinião mais contributiva sobre o assunto);

- que a fama de pessoas como o Cristiano Ronaldo é diferente, pois é uma fama que foi conquistada com o seu trabalho, que dá reconhecimento ao seu bom desempenho enquanto futebolista, que não foi uma fama conquistada de um momento para o outro (tudo certo, só não referem a fortuna escandalosa que essa fama lhe traz, mas isso são uvas para outras vindimas).

E houve outros comentários, análises e argumentos, que poderiam constar aqui.

O problema é que tudo isto aconteceu assim, porque os meninos foram confrontados com uma folha de papel em branco, com uma caneta na mão, cada um com o seu pensamento.

O problema é que bem sabemos que eles acompanham e, em muitos casos, seguem religiosamente, os degredos todos, nas casas da vergonha nacional, e que o recorte da TV e as variadíssimas revistas cor-de-burro-quando-foge fazem questão de os pôr ao corrente de tudo o que lá vai.  

Infelizmente, muitos dos seus familiares também. Como as pessoas deixam esturricar o almoço, para comentarem com as vizinhas, como sorriem e se inflamam e tomam partido por este ou aquele concorrente, cheias de convicção! Ah, houvesse assim convicções para tratar de vida a sério!

Como se a própria vida fosse feita destes alaridos, destas tantas vidas fabricadas dos outros.


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