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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

DIZ-ME COMO TRATAS OS ANIMAIS, DIR-TE-EI QUEM ÉS

ANABELA BORGES
DR
Entrou em vigor, em 1 de Outubro de 2014, a lei que criminaliza os maus-tratos contra animais de companhia.

Eu acho bem. Acho até muito bem, num país (e numa Europa!) que se quer modernizado, evoluído e que se julga encavalitado na crista da onda capciosa do progresso, que se pense em formas de proteger os animais. Os animais que vieram ao mundo, como viemos nós e todas as espécies de seres vivos, com os mesmos direitos de cá andar em paz e sossego, não têm culpa da insanidade de muitos – que, esses, a bem vermos as coisas, não têm (não deviam ter) o direito de cá andar.

É claro que poderão vir a surgir casos extremos na aplicação da lei, casos de excessos, excessos de zelo, erros ou falhas nas interpretações e acepções do que realmente importa, do que verdadeiramente, de forma cívica e consciente, faz falta. Há pessoas que são paranóicas no que toca aos animais de estimação, há mesmo situações ridículas, que, na verdade, não são nada, a não ser “manias” nas cabeças das pessoas, mas isso é porque essas pessoas já são assim delas, em tudo o que fazem, não apenas no que toca a animais. De qualquer modo, não acredito que os tribunais venham a ser entupidos com esses casos. Acho que devem ser denunciados, de acordo com a lei, casos de maus-tratos a animais e de abandono. Acredito que, lentamente e com racionalidade, as pessoas comecem, de facto, a respeitar os animais – porque é, acima de tudo, uma questão de respeito.

Numa frase, bem conhecida, atribuída a Gandhi, lê-se mais ou menos isto, que “O grau de evolução de uma sociedade pode ser avaliado pelo modo como essa sociedade trata os seus animais.” Temos muito a evoluir, portanto.

Também devo referir que muita coisa pode ser tida em linha de conta, quando se fala em ter animais de estimação. Todos sabemos que há muita gente que os tem e os quer ter, mesmo sem reunir condições. É inegável o crescimento do número de cães em habitações, muitas das vezes sem condições físicas das próprias habitações, com animais encafuados em espaços exíguos, sem luz ou ar; outros acorrentados às casotas, sujeitos a todo o tipo de condições climatéricas, à chuva, ao calor, sem água para beber... – Tudo mais parecendo uma obsessão das pessoas por terem cães, sem haver uma preocupação em dar-lhes as condições de que necessitam. Muitas dessas pessoas são as que acabam por abandonar os cães na rua, por incompatibilidade de partilha de espaço, por falta de tempo, e tantas outras razões que aqui poderiam ser evocadas, nenhuma delas válida, pois há que procurar outras soluções – abandonar um bicho que não vai fazer queixa á polícia é o mais fácil para essas pessoas sem dó nem piedade; e então agora, em época de caça, é verdadeiramente reveladora a desumanidade de quem quer ter cães só porque sim, a seu bel-prazer.

Há muitas coisas relacionadas com animais com as quais eu não concordo, muitas por considerar que são maus-tratos, que revelam falta de respeito pelo próximo, pelos bichos, que são também “o próximo” em relação a nós, humanos, que não somos, em nada, mais do que eles.

Eu já fui excluída (neste caso o termo é “bloqueada”) numa rede social por ser contra as touradas, por ter manifestado a minha opinião num destes textos que escrevo. O senhor, que se sentia ofendido por eu ser a favor do fim das touradas, dizia assim, literalmente, num comentário ao meu texto: “Ficas com o teu egocentrismo. Então achas bem condicionar as minhas liberdades? Amanhã, às 9:00 excluo-te das minhas relações”. Ah, pois é: tão real como vocês estarem aqui a ler este texto – pessoas más, mas, acima de tudo, perigosas para a sociedade. Eu acho que uma pessoa com um raciocínio assim desconcertante é capaz de tudo. Isto mostra o que muitas pessoas são – perigosas (é o termo) –, em relação umas às outras, mas muito mais em relação aos animais. Acabar com as touradas é, para este iníquo cidadão, privá-lo das suas liberdades.

As touradas, os circos (com animais), os jardins zoológicos, só para dar alguns exemplos, são espaços / actividades com animais que condeno.

O que seria do ser humano se se mantivessem todas as tradições? Felizmente, já fomos capazes de acabar com muitas. Felizmente! Manter tradições é saber escrutinar o que é bom e faz bem aos homens, à natureza, aos bichos. Para que somos, então, dotados de racionalidade? É só para fazer o mal? Para sujeitar à nossa vontade quem não pediu para fazê-lo? Para satisfazer caprichos ridículos? Para humilhar? Torturar?
Experimentemos uma revolução. Assim simples: seres humanos enjaulados, enquanto diversos animais admiram o espectáculo do lado de fora. Pois. 

A Tareca e a Rita não param de brincar
Não vou a nenhum espectáculo de circo que inclua animais. Ponho muitas reticências em determinados parques de animais e jardins zoológicos. Sou (muito) a favor de centros que estejam vocacionados para a recolha, tratamento e libertação de animais, cujo objectivo principal seja a recuperação de animais feridos ou debilitados, ou em vias de extinção, com vista à sua devolução ao meio natural (libertação).
Enquanto a Xica e a Xana descansam

Na minha última ida a Coimbra (cidade e suas gentes que muito admiro), por aquelas ruelas e vielas, entre o casario, as tasquinhas e as esplanadas, vi muitos gatos cegos de um olho. Sim, gatos com um “olho à Camões”. Eram bichos assustadiços, que logo fugiam assim que alguém se aproximava deles. Pudera! Fiquei deveras impressionada. E não tenho dúvidas de que se trate de alguma estúpida brincadeira, estudantil ou não, de pôr os gatos com um “olho à Camões”, na terra onde o poeta terá feito os seus estudos. Mas, não – poeta  Luiz Vaz de Camões, “príncipe dos poetas” –, tu não aprovas a estupidez, pois não? Os poetas não se orgulham da alma humana impiedosa que a cada passo se revela em nós. Sejamos, pois, mais humanos, menos cruéis.

Termino com uma ideia atribuída a Leonardo Da Vinci:
Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo de um animal. E nesse dia, todo o crime contra o animal será um crime contra a humanidade.


Falta esse dia.

1 comentário:

  1. Subscrevo cada palavra. Tenho um cahorro que tem sido a alegria cá de casa. Entristece-me ter de sair para trabalhar e ele ficar sózinho em casa. No entanto sempre que posso, dou um saltinho a casa à hora de almoço para ele não estar tantas horas só. É tratado e educado com carinho, e nós somos sempre recebidos com alegria apesar da nossa ausência!
    Espero mesmo que esta lei venha fazer as pessoas reflectirem e alterar a forma como se comportam com os animais.

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