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sábado, 18 de outubro de 2014

DIA DA POBREZA DO MUNDO

J. EMANUEL QUEIRÓS
DR
A ONU proclamou a erradicação da pobreza como meta a ser atingida por todos os países até ao final de 2015. Mais de duas décadas após o promissor objectivo ter sido estabelecido no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/10) o mundo reflecte um mais agravado estado de insanidade colectiva, menos consideração pelas diferenças e pelo próximo, maior concentração de fortunas pessoais e disseminação da pobreza, provando do desrespeito generalizado pela indiferença das orientações da ONU, da dignidade do Homem e desconsideração pelas mais elementares necessidades existenciais. 

As soluções para a erradicação da pobreza, em Portugal e em qualquer outro território subordinado a uma bandeira, são uma prerrogativa que ao próprio homem compete e está nas suas mãos e na sua vontade cumprir. Contudo, não só não se cumpre como também não se vislumbram orientações políticas nem se perspectivam decisões específicas, em concreto, que atendam a esse desiderato humano global, tratando-se de uma chaga aberta pelos homens sobre a Terra. Em contraste, algumas vozes mais influentes sobre a especificidade deste problema social que se escutam em Portugal dissertando sobre a pobreza padecem de afectação de casta, de alguma síndroma ocular de natureza sócio-ideológica ou de enviesada e tendencial orientação programática, dominada pelo preconceito de colocar os mais desprotegidos numa subcategoria social de indigentes que a adoptam como forma de satisfação pessoal ou de realização profissional, como se tratando de uma subespécie humana que envergonha os demais bem sucedidos e os afortunados. 

No actual estado convulsivo em que o mundo se encontra e na instabilidade repercutida em Portugal com a degradação das condições sociais dos mais débeis é perceptível, que a Organização das Nações Unidas se assemelha a um sofrível biombo internacional onde se movimentam sombras chinesas de belo efeito estético, cujas encenações não têm repercuções visíveis nos ‘teatros das operações’ ao nível de cada país. Doutro modo, as deliberações tomadas por todos na Assembleia-Geral seriam recebidas com entusiasmo em cada país, passando a figurar nas prioridades de cada Estado e alinhadas no plano da execução das políticas, do plano nacional ao local. 

Portugal vai no sentido de ficar mais apetecível para os empresários internacionais que tanto fixam suas tabancas em Marrocos, na China, no Vietname ou no Bangladesh. Tudo se encaminha para que os horários de trabalho aumentem, se reduzam os direitos laborais, se despeça por justa causa a mulher grávida e se possa esmifrar o esforço individual do trabalho pelo tutano até à doença. Podem vir as matilhas internacionais ávidas de lucros fáceis e ciosas de acumulação de riquezas rápidas que o país está mais moderno, o povo domesticado e perfeitamente conformado com as novas ordens dimanadas da pirataria internacional que, se for preciso, põem-se à míngua para salvar bancos fraudulentos e cobrir burlas de milhões. 

Que se vão os jovens para outras paragens, que se virem os velhos quanto mais depressa melhor, que o país entre em inversão demográfica, que ganhem menos os que trabalham. Os compromissos não são com quem cá está mas com os grandes senhorios que mandam em nós, na sociedade e no Governo. Para esses isto está cada vez melhor e em estado de situação assim as notícias que dão conta que quem recebe o salário mínimo ganha menos 12 euros do que em 1974 são muito esperançosas.

Ao invés, do que a ONU proclamou, por todo o mundo se vê cada vez mais gente a passar da situação remediada para a condição de pobreza e da pobreza para a indigência, tudo à custa do aumento das fortunas dos mais abastados, do interesse proteccionista proxeneta de uma perversa lógica de crescimento económico dos Estados com que se promove o amontoado de descomunais fortunas pessoais que têm vindo contribuir para o esgotamento acelerado dos recursos naturais e para a subvalorização da Vida na Terra e no homem.

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