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domingo, 12 de outubro de 2014

CHOVE

Chovem latidos na noite. Algum cão responde a frequências que não ouço. O vento amainou e a imaginação
MIGUEL GOMES
DR
não me deixa aceder aos confins do adormecer, não quer acordar amanhã, compreendo-a. Nada como viver no segundo, saltando a cada passagem dos ponteiros. Ou viver no primeiro, antes de nascer.
Chove, pelos cantos, aos cântaros, enquanto não me sei secar. O calor faz-se pela fricção de um dia a raspar sofregamente pelo tempo que demora o acordar de um segundo num minuto.
Sentado no cercado, vejo-os a guiar rebanhos cegos. Não têm cães, vara, cajado, nem vociferam. Atiram para o seu meio vestes, que não precisam pois já têm lã. Atiram para o seu meio ração, que não precisam pois já têm erva. Atiram para o seu meio espelhos, que não precisam pois têm-se umas às outras. E enquanto rodopiam, movidas umas pelas outras, sem que parem - pois se todas correm, porque há-de uma parar? - outros movem o cercado, primeiro uns passos, depois uns metros, até o último passo ser dado e elas, atónitas, perceberem que correram sem necessitar, egoificaram sem necessitar, gastaram energia sem necessitar, vestiram sem necessitar, para agora, findo o divertimento do lobo, serem um emaranhado de lã que ninguém vestirá.

Não sei o que me entristece mais, ser ovelha ou analogiar com a pureza que amo, perjuriando a santíssima trindade, o Pastor, a Ovelha e o Lobo.

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