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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

«A MORTE, ESSA, É APENAS NÃO SER VISTO»

Leonor é um nome muito bonito. Lembra-me sempre realeza, distinção, sobriedade. A última Leonor que conheci acrescenta-lhe uma qualidade rara nos tempos modernos: bondade.

Ontem, Ricardo sugeriu-me que hoje escrevesse sobre uma Leonor que não conheço – a Princesa Nonô – que um anjo mau levou para um reino distante.

PRINCESA LEONOR
DR

GABRIEL VILAS BOAS
DR
Durante um ano, ela lutou com uma força de guerreira pelo reino de amor que os pais lhe construíram. Enfrentou, com um sorriso profundo e bondoso, um inimigo – o cancro – que devia ter vergonha de aparecer a gente tão pura como a Nonô.

Os pais, cujo nome desconheço, mas que são pais como eu e muitos de nós, dizem que ela os ensinou a sorrir e a aceitar. “Aceitar” é uma palavra que não cabe no dicionário de uma criança, a não ser que ela seja sábia e possua uma alma tão grande que nos peça para trocar lágrimas por sorrisos. 

Certo dia, o poeta Drummond de Andrade expressou o desejo de ser rei, com o único fito de decretar a imortalidade da Mãe. Para os pais, a imortalidade dos filhos é uma lei sagrada que os seus corações escreveram quando eles ainda eram embrião. Por muito que o mundo seja injusto e mau ou que o destino seja cruel, não há nenhum “mas” nessa lei.

Sabes, Nonô, acho muito difícil cumprir o pedido que nos fazes: sorrir e aceitar. Não temos a tua sabedoria nem a tua grandeza. Aceitar é compreender e perdoar. E eu não vejo como um pai possa perdoar uma coisa destas à vida. Aceitar é recomeçar e eu não sei como se recomeça quando nem sequer há cacos para colar. 

Não sei se percebeste bem, querida Leonor: roubaram o coração aos teus pais, mas deixaram-nos vivos. E pior do que isso, roubaram-te! Proibiram-te de tomares posse dum reino maravilhoso que se chama Vida. É, de facto, maravilhoso, mas tem sítios e horas tão escuras e feias que nos fazem desejar perder a memória.
Talvez um dia destes a vida tente redimir-se e ofereça aos teus pais um anjo de carne e osso. Provavelmente fá-lo-á imortal, como é normal entre as crianças, e talvez lhes arranque sorrisos que agora nos pedes e não conseguimos dar. Mas serão sorrisos com um “Todavia” que és tu!

Sabes, Leonor, o teu nome só devia rimar com Amor, mas hoje, ele só transpira Dor. 

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