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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

FÉRIAS ALGARVIAS

“Há mais doentes à espera nos hospitais, mais trânsito na Nacional 125 em fuga às portagens da A22, filas em restaurantes e supermercados. É o reflexo de a população triplicar no Algarve durante o mês de agosto”, lê-se no Jornal de Notícias de 16 de Agosto de 2014.
Na mesma data, o Diário de Notícias acrescenta: “Improviso e paciência evitam colapso algarvio no verão”.

ANABELA BORGES
DR
Eu não gosto de passar férias no Algarve. Ando sempre a fugir de ir para lá, mas, volta e meia, vou lá parar, em busca de Sol e de bom tempo, porque sou do norte e farto-me do frio, do vento, da chuva e dos invernos intermináveis. Normalmente, sou bem-sucedida – no bom tempo e nas horas sem hora passadas com a família. O resto costuma ser uma desilusão.

Nunca faço férias no mesmo lugar, na mesma cidade, na mesma praia. Se o faço, é porque gostei muito e então decido repetir a experiência. Tirando isso, vou sempre para lugares diferentes. Vou experimentando um e outro lugar, para ver se não saio decepcionada com o que o meu país tem para me oferecer quando sou turista cá dentro. 

E a zona do país que mais me tem decepcionado em férias é, sem sombra de dúvidas, o Algarve.
Em termos gerais, se eu comparar o Algarve que visitei há uns dez anos com o Algarve de agora, poderei afirmar que as coisas melhoraram um bocadinho, mas foi só um bocadinho.

O Algarve tem ainda muito para aprender em matéria de turismo. O Algarve não aprendeu, nem com a crise.

No artigo supra-referido do JN, podemos ainda ler que os empresários queixam-se de falta de mão-de-obra qualificada, pois contratem-na! A meu ver, em Portugal, não falta mão-de-obra qualificada na área do turismo, o que é necessário é contratá-la e pagar o valor justo por ela. Não é chegar à época alta, arejar o mofo do restaurante (supermercado, lojinha, residência…), que está fechado durante a maior parte do ano, e toca a aviar turistas – venha a nós o vosso, que é para isso que cá estamos e para isso vós cá vindes.

O Algarve ainda não está preparado para o turista de (se ainda se pode chamar) “classe média”, o turista comum, na boa acepção da palavra. O Algarve ainda olha o turista nacional com algum desdém, sobretudo o turista que não tem “fortunas” para gastar. Já está melhor, mas ainda funciona um pouco assim. Deixo-vos aqui uma algaraviada. 

Uma vez, na cidade de Tavira, paguei mais de 100 euros por uma dourada e duas batatas cozidas para dois. Otários… (soubéssemos nós, a ver se lá tínhamos ido…). Não, não era um restaurante de luxo, nem com um serviço de excepção, era um restaurante normal (não fosse o valor da parca refeição, que o torna anormal a meus olhos). 

Em Monte Gordo, há um hotel que se diz de 4 estrelas. Bem, no “meu” país aquilo nunca poderia ser considerado um hotel dessa categoria: as zonas comuns são abafadas, sem condições de se passar por elas sem pingar suores a fio; mais banho menos banho, não adianta, pois basta sair do quarto para verificar que não há ar condicionado – é mesmo para abafar; o restaurante do hotel é do tipo “cantina” de parque de campismo, com tabuleiro e balcão corrido, vergonhosamente encafuado numa cave (abafadíssimo), com filas intermináveis para todas as refeições do dia. Saindo do hotel para ir para a praia, em pleno centro de Monte Gordo, vai-se por caminhos de terra, sem passeios, enfeitados de cocós de cão, contornando os carros estacionados ao trouxe-mouxe – o que, aliás (carros estacionados ao trouxe-mouxe nas imediações das praias), é um postal ilustrado do Algarve.

Em Manta Rota, praticamente também não há passeios, visto que as tascas e cafés instalam as suas esplanadas em cima deles(duvido que isso seja legal), obrigando as pessoas a caminhar pela rua juntamente com os carros; os poucos passeios que existem são estreitíssimos e, como se diz na minha terra, um de cada raça – aqui ladrilho, aqui calcário, ali cimento –, fazendo com que a Manta Rota pareça uma verdadeira manta de retalhos. Típico. Postal.

Qualquer taberneiro do norte do país teria vergonha de pôr à frente o prato de lulas fritas, por 10 euros, que me serviram num restaurante algures em Portimão: as lulas, que nitidamente não eram frescas (via-se que eram congeladas), não eram maiores do que polegares e nadavam em óleo, ladeadas de quatro ou cinco metades de batatas cozidas e polvilhadas com coentros – quer dizer, ficava-se com fome, era pouca comida… Mas algo foi bem pior que a fome! Fiquei enjoada de gorduras por duas semanas (e não, não estou a exagerar). A pobre refeição acabou por ficar dispendiosa, com as entradas, as bebidas e as sobremesas.

Em Albufeira, quando perguntámos à chefe de mesa de um restaurante se podíamos sentar-nos na esplanada, ela demorou uns segundos a responder – aquela mesa que vagara era tão boa para os ingleses! – e depois disse qualquer coisa como (foi verdade!): “Podem, sim. É um prazer acolher os senhores… que falam a língua de Camões”. 

Oh, Camões, Camões: “Esta é a ditosa pátria minha amada”!* 

Albufeira é assim uma coisa entre abismos e absurdos. Depois do dito jantar na “língua de Camões”, fomos dar um passeio a pé. Não se podia. De facto, aquilo é dos estrangeiros, sobretudo dos ingleses: o apertilho nas ruas era aflitivo; os bares estavam a abarrotar de gente; a cidade fervilhava de música, de euforia e fedia a álcool. As pessoas estavam “animadas”, mas não eram necessariamente educadas, pois, por exemplo, atiravam pedras de gelo aos cantores-animadores dos bares, mas como aquilo era tudo em esplanadas no meio das ruas, qualquer um levava com as pedras de gelo, como um de nós levou nas pernas, e não foi bonito. No final, ficou uma sensação de alívio por estarmos em Albufeira só de passagem.

Para finalizar este artigo, acrescento que o Algarve tem, de facto, águas calmas (não disse areias) e bom tempo. E nós, turistas comuns, que vamos em busca disso, até nos esquecemos de todos os males, se nos voltamos para o mar, assim ao fim da tarde, quando as pessoas vão abandonando a praia, tudo a ficar-nos para trás das costas e a paisagem marítima a envolver-nos nos crepúsculos dos mistérios de um mundo ainda por descobrir.

E assim como assim, boas férias!

*Luiz de Camões, Os Lusíadas (Canto III, est. 21)  

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