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sexta-feira, 4 de julho de 2014

DEIXA-TE ANDAR, DEIXA…

GABRIEL VILAS BOAS
DR
«Que falem bem, que falem mal, mas que falem!» - quantas vezes já não ouvimos isto? Ser esquecido é que não! Tornar-se irrelevante é que se torna insuportável!
Talvez os políticos portugueses não tenham percebido muito bem para onde caminham, mas a irrelevância social e afetiva tornou-se o seu destino. Tal como o velho ditador cubano cuja existência já ninguém recorda apesar de continuar vivo ou o líder madeirense cuja vida pública expirou, a política morreu no coração dos cidadãos e demorará largos anos até que ressuscite. E nada atinge mais o ego dum político de que a noção clara da sua insignificância social. Hoje ninguém quer saber dos debates sobre o estado da nação feitos na assembleia da república, ninguém se apoquenta com as guerrinhas dentro do PS nem se entusiasma com os anúncios de reformas virtuais que normalmente vêm “reformar” as anteriores que falharam ou nem se implementaram. Há um encolher de ombros sardónico da população portuguesa que a classe dirigente bem fez por merecer.
No entanto, este “deixa andar”, este “já nem me interessa” serve para quase tudo. De vez em quando há uma indignação pífia que dura 48 horas e que é mais facebookiana e televisiva que real porque a seleção foi eliminada ou Cavaco desmaiou.
Infelizmente é também a atitude que adotamos sobre coisas importantes. Um ministro da Administração Interna teme que os seus bombeiros não tenham atempadamente os equipamentos necessários para combater os fogos e ninguém lhe pergunta indignadamente o que andou ele a fazer durante os últimos nove meses, já que é o responsável pela área; o banco privado português mais relevante do país têm um buraco de 7 mil milhões de euros e o Banco de Portugal obriga o seu líder a sair e ninguém pergunta ou exige que o ministério público investigue e leve a tribunal os responsáveis por tal buraco. Depois do BCP, do BPN, agora chegou a vez do BES provar como os privados gerem tão bem e tão honestamente o dinheiro que lhes confiámos. Como criam eles riqueza, emprego e felicidade!
Todavia, o pior de tudo, durante esta semana, foi a não reação aos números do desemprego em Portugal. No final de junho ficámos a saber que continuamos a ter cerca de 800 mil desempregados. Destes mais de metade não recebe subsídio de desemprego, isto é, não tem qualquer proteção social. Paralelamente, o governo ufana-se de ter deixado de pagar o RSI a 45 mil pessoas no último ano. Só não diz o que aconteceu a essas pessoas, como não revela como vivem os 400 mil desempregados que não conseguem trabalho e não recebem subsídio. Isso não lhes interessa verdadeiramente. Sempre abominaram que o Estado tivesse qualquer compromisso de solidariedade mínima com os seus cidadãos. Não podendo destruir o bom que havia na criação do rendimento mínimo, mudaram-lhe o nome e fizeram crer que a fraude era o nome do meio desse subsídio de subsistência. Perseguiram os faltosos como criminosos de guerra, enquanto nos pediram compreensão com os crimes económicos nos BES, BPN e BCP desta vida. Infelizmente sempre houve e haverá fraudes no RSI como há nos bancos, nas empresas, nas instituições públicas. Temos de as combater, punir e seguir em frente e não aproveitar situações pontuais para impor iníquas agendas ideológicas.
E perante tudo isto, o que fazemos? Pois, temos pena, muita pena, mas, se o mal não nos bate à porta, logo mudamos de canal ou regressamos ao facebook; caso o problema seja connosco, preparamo-nos para descer mais um pouco o nosso nível de vida, sem darmos um bocadinho de luta, até ao próximo corte que acontecerá porque… sim.
Isto não tem de ser assim. É possível fazer mais e melhor, na governação do país, na atitude social, no estilo de vida que temos ou que deixamos que os outros nos imponham.

Já que não agimos quando devíamos, é necessário reagir. Não aceitar este estado de coisas. Exigir mais de quem nos governa e não apenas do Paulo Bento e do Cristiano Ronaldo. Exigir mais da nossa ambição. Se não o fizermos, estamos a caminho do país da irrelevância social e pessoal. E nesse lugar não há likes nem smiles e muito menos resgates.

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