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quinta-feira, 26 de junho de 2014

ENCERRAMENTO DO ANO LECTIVO

“O tema da crise dos valores não nasceu nem hoje, nem ontem, pois sabe-se que a ‘Umwertung alIer Werte’, a ‘Inversão de todos os Valores’, já foi um dos temas privilegiados da reflexão de Nietzsche […]”. – em: OS VALORES DA CIDADANIA, por Isabel Renaud (1992). 

Os professores são mais, muito mais e cada vez mais, do que meros transmissores de conhecimentos.

Anabela Borges
DR
O exame começou às 9:30 em ponto. Os alunos iniciaram a prova, cada um metido na sua circunspecção.

O dia de Junho marcava o Verão no calendário, mas era um dia frio, chuvoso, digno de não deixar na vergonha qualquer dia de Outono. Lá fora, o vento agitava a ramagem, o cinza e o chumbo instalavam-se lentamente como quem chegava para ficar. Na sala, as luzes acesas e uma aragem fresca imprópria para um dia de Verão. Decorria a prova. E aquelas duas professoras, vigilantes, pensavam, cada uma, no desagasalho dos jovens, impreparados para aquela partida de São Pedro em vésperas de São João.  

Eram os pés desnudados, eram as blusas de alcinhas e as T-shirts. E naquela hora, acautelado que estava o fecho de todas as janelas, a porta aberta, pois as normas não permitiam que se fechasse, cada uma das professoras estava preocupada com o bem-estar e o conforto de cada aluno. E esperavam, no seu íntimo, que a prova não fosse para eles um impreparo tamanho como aquele dia feio e mal-humorado de Verão.

Há muitos anos que trabalho directamente com pessoas. E é tão difícil trabalhar com pessoas!

Neste ano, trabalhei com pessoas com idades compreendidas entre os 13 anos e os 50 e picos. As pessoas mais difíceis que encontrei, pelos mais variadíssimos aspectos, são as que se situam nas franjas deste conjunto de idades, ou seja, as da faixa etária dos 13/15 anos e as dos 50 e picos. É claro que isto não é nenhuma regra, provavelmente até poderá constituir uma excepção grosseira, pelo menos parcialmente. Isto sou só eu a falar do que vi e senti. E não esqueçamos que estamos a falar do meio escolar.

Sei explicar muito bem as razões (e não são nada animadoras) pelas quais não é fácil trabalhar com o primeiro grupo. Já sobre o segundo, as coisas não são assim tão claras, nem assim tão lineares.

Começarei por falar do segundo grupo, uma vez que me parece mais atópico, mais inconsistente, mais difícil de caracterizar, e assim ficará arrumado – para reflexão, claro está. Algumas dessas pessoas são pouco pacientes (o que, por vezes, dava para confundir com pouco tolerantes); são pessoas que colocam obstáculos em tudo, tudo lhes faz espécie, vêem problemas em todas as direcções (não, eu recuso-me a aceitar isso com a desculpa de que são pessoas mais experientes, ora essa); queixam-se muito, reclamam muito, por tudo e por nada; olham os outros com alguma desconfiança e falta de crédito; em alguns casos, verifiquei que são as que mais falham profissionalmente. Eu não gosto nada de pessoas com mau-feitio, isso já deu para ver. Porque até num mau-feitio tem de haver muita inteligência, tem de haver espaço para respostas e portas abertas e boas-vontades. E, muitas vezes, não há.

As pessoas do primeiro grupo deviam constituir uma das grandes preocupações da sociedade actual, correndo o sério risco de virem a ser estudadas, no futuro, como verdadeiros exemplos de barbáries cívicas. Não arrumam as cadeiras onde se sentam; deixam lixo em cima das mesas e nos sítios onde estiveram, sem olhar para trás, e quando lhes é dito que não há criados, quando se lhes chama a atenção, reagem com a maior das naturalidades, afirmando que há – apontando para os auxiliares de acção educativa, os contínuos; comportam-se dentro da sala de aula com poucas diferenças do que é comportarem-se no recreio, em termos de barulho e de utilização da voz; levantam-se do lugar sem pedir licença – mesmo que já tenham sido chamados à atenção por mais de 1000 vezes; mastigam chiclete e utilizam o telemóvel, sabendo que não é permitido – desrespeitam, nestas e noutras situações, todo e qualquer regulamento; utilizam bolas de futebol nos corredores; estragam rolos de papel higiénico inteiros, só porque sim; poucos querem saber das aprendizagens e um amontoado deles quer apenas saber o que vai sair para o teste.

Poucas vezes estes alunos são punidos. Pouco ou nada lhes acontece.

Ao contínuo resta-lhe gritar aos alunos, que não lhe obedecem, pelos corredores fora. Ao docente resta-lhe vestir uma capa de professor cara-de-mau, para que eles abusem o menos possível, resta-lhe falar-alto-para-se-fazer-ouvir, pelo menos nos primeiros minutos da aula, dependendo do dia e da hora, e da turma, é claro, que isto também varia de turma para turma, de escola para escola, de localidade para localidade.

E depois? Depois?

No fim de contas, o professor é muito mais do que um mero transmissor de conhecimentos, muito mais. Mas isso já todos nós sabemos. É o menino que tem de ir encher a garrafa de água; é a que lhe dói a barriga e tem de ir tomar um chá; o que lhe dói a cabeça, se a “stora” tem um comprimido (já agora!); a que está a chorar, porque “stora… umas cenas”; o que se levanta e foi só para apanhar a caneta, que por milagre, sozinha, voou cerca de 2 metros e meio; é o que tem mesmo de ir à casa-de-banho porque está mesmo muito apertadinho; é a gargalhada geral, porque o pior aluno da turma disse uma piada, que a “stora” não ouviu mas teve mesmo piada porque ele é o pior aluno da turma e por isso é o mais admirado pelos colegas. Sim, porque os meninos não podem esperar. Sim, porque os meninos têm um umbigo muito grande e vêem pouco pra lá dele, e vão queixar-se ao Diretor de Turma e aos pais. Sim, os meninos. Os meninos.

Parece que estou a acordar de um pesadelo.

Ainda bem que as pessoas com quem trabalhei este ano não são todas assim. Ainda bem que ao longo da minha vida tenho trabalhado com pessoas trabalhadoras, responsáveis, generosas, preocupadas, interessadas, tolerantes, empreendedoras e simpáticas.

Eu sei que estas pessoas vão sempre existir.


As outras, é preciso ajudá-las a mudar. Ainda vamos a tempo. Iremos?

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