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quinta-feira, 24 de abril de 2014

40 ANOS DE ABRIL

ANABELA BORGES
DR
Há 40 anos, eu tinha 4 anos.

Não tenho memória alguma desse 25 de Abril de 1974. Mas podia ter, que eu tenho muitas memórias de quando era pequena. Desse dia específico não tenho.

Dos dias, meses e anos subsequentes lembro-me das canções de liberdade, sobretudo da gaivota voava, voava, / asas de vento, / coração de mar. […] / Como ela, somos livres, / somos livres de voar.

Lembro-me de terem surgido, repentinamente, risos. Mais do que risos, lembro-me de gargalhadas sonoras, inteiras como pássaros, como conduta até aí proibida – sabemos que o era, basicamente –, lembro-me disso sobretudo nas pessoas mais jovens. Era como se o rir fosse um bem amordaçado, (in)contido, pronto a libertar-se, solto, a qualquer instante, para, bem alto, clamar uma nova realidade.

Lembro-me também de esses jovens saírem muito mais vezes de casa, muito mais espontaneamente, e de se juntarem, em pequenas reuniões informais, sem pretexto aparente, rapazes e raparigas conversando, dando voz às suas opiniões, na Sua Liberdade, e divertindo-se com isso, muitas vezes deitados sobre a erva fresca do monte à sombra dos pinheiros.

Era pequena e lembro-me disso.

Essa foi a Liberdade de Abril que conheci, que para mim, como era pequenina, era como se sempre tivesse existido assim.     

Eu pertenço à geração que cresceu nas promessas de Abril.

Hoje, como muitos de vós, questiono a Liberdade conquistada na Revolução dos Cravos. O velho Abril aos quarenta anos já pouco tem para dar.

Questiono: o que temos? E sabemos que usufruímos de uma falsa liberdade gerida por um mundo que se quer global e capitalista. “Falsa” talvez seja um adjetivo demasiado forte, mas não terei dúvidas em afirmar que é uma liberdade limitada e, em muitos aspetos, ilusória. Nunca fomos tão controlados como somos actualmente; a dignidade humana está posta em causa, os direitos humanos, a integridade, o direito à felicidade; aumentam os casos de pobreza e as pessoas vêem-se encurraladas numa masmorra sem grades, com janelas abertas para saída nenhuma.

A verdade é que também não me identifico muito com as pessoas que falam, falam, criticam, mas não fazem nada. Vai uma crise de identidade muito grande. Falta-nos a força de outrora, a determinação.
Precisamos de uma sociedade coesa nos valores elementares e com espaço para a individualidade, uma sociedade em que cada um saiba pensar por si, em que cada um respeite verdadeiramente a diferença e que condene verdadeiramente todo aquele que agride os direitos fundamentais do outro, de todas as formas. Liberdade é respeitar o próximo na sua integridade, é não negar ao outro o direito de ser feliz.

O que falta conquistar? Muita coisa que nunca tivemos, muito do que se perdeu, mas pelo menos comecemos por “resgatar” a Cultura do estado de negligência em que caiu. Comecemos por aí talvez, apostemos em “cortar” na ignorância, sejamos mais activos e interessados, não deitemos o país ao abandono. 

Eu lembro-me que havia, acima de tudo, muitas coisas que preenchiam as pessoas, os dias preenchiam as pessoas com esperanças do tamanho dos peitos. Agora, vemos vazio em tudo. Agora, impuseram-nos de novo a tristeza. E querem-nos ignorantes, é assim que nos querem…

É claro que para terminar, direi “Abril sempre, Liberdade sempre”, que nunca fui pessoa de baixar os braços, nem de pôr a esperança de parte.

Viva o 25 de Abril!


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