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quinta-feira, 27 de março de 2014

SOMOS NADA

ANABELA BORGES
DR
Nós não somos nada.
Andamos neste mundo a correr atrás de tantas coisas, a acumular coisas, a passar por cima de coisas, a olhar para tantas coisas e a caminhar por tantos caminhos. Mas, na realidade, na corrida, muitas vezes, apenas chegamos onde já estávamos; no acumular, não juntamos nada de substancial, meros objectos, materiais que não nos acrescentam importâncias à personalidade, não nos enriquecem psicologicamente, nem nos tornam melhores pessoas; no passar por cima de coisas… ah, deixamos para trás tantas pequenas coisas que nos fariam muito mais felizes e aos que nos rodeiam; no olhar para as tantas coisas que cruzam o nosso dia-a-dia, não “vemos” o que realmente importa; e no caminhar por tantos caminhos, depende dos caminhos que escolhemos fazer. A vida é feita de caminhos, encruzilhadas e caminhadas, cabe a cada um mudar de direcção se estiver a prejudicar os outros. É uma questão de humanidade.
  
Também me debato, muitas vezes, com o pensamento de como seria importante cada um preservar a sua individualidade, na globalidade em que teimam em conduzirmos. Desde sempre que penso que, se te confinas a um grupo, empobreces. Não é um grupo que te define nem as suas ideologias, porque, a um dado momento, começa a faltar-te a individualidade. Tens de ter os teus ideais, que podem diferir, em muito ou em pouco, dos ideais do grupo. De modo algum, deves fazer dos ideais de um grupo o teu modo de vida.

A vida é esta travessia: atravessas um oceano: durante semanas, apenas vês o horizonte, perfeito e vazio. Dia a dia, vives tolhido pelo medo que te acerca, tempestades, monstros marinhos, doenças, ganhas medo àquela imensidão. E o medo cresce tanto que tens de aprender a contê-lo dentro de ti, retê-lo, até que se concentra no centro da tua barriga, e dói. Segues: estudar mapas, rever rotas, observar as estrelas, rezar por bons ventos. E manter a esperança é importante, uma esperança que se quer cristalina como a água, ainda que seja frágil como o teu barco.
Começas a ver. De início, não passa de uma névoa no horizonte, que te confunde os sentidos. Então, esforças-te por ver melhor, ver por meio de um reduto de esperança. Daí a nada, parece-te ver um borrão, uma mancha como numa aguarela, uma sombra que se desenha acima da linha da água, ao longe. Durante um dia e outro e outro, uma miragem. Tu pensas, “névoa apenas”, tu pensas, “quem sabe, a aproximação de uma tempestade”. Mas a mancha alastra lentamente no horizonte, ganhando forma, até que certo dia permites-te acreditar. Atreves-te a sussurrar a palavra “terra”. Certo dia, vês uma gaivota e enches-te de esperança, pensas que estás a aproximar-te da terra, mas esqueces-te que pode ser apenas uma gaivota perdida em alto-mar, como tu. 

Embora constantemente sejamos convidados a usar a força, a vida também requer muita sensibilidade de nós. A essência da vida está em compreender como as coisas funcionam.
Muitas vezes, rimo-nos para esconder o terror da nossa mortalidade.

Todos sonhamos coisas na vida, mas nem sempre os sonhos acontecem como desejaríamos.

Resta a cada um saber seguir com sabedoria, perseverança e determinação no mistério insondável da vida.

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