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sexta-feira, 14 de março de 2014

ROTINA OR NOT ROTINA?

GABRIEL VILAS BOAS
DR
Quando em pleno século XIX, a revolução industrial toma conta da Europa e a máquina ocupa a vida das pessoas, um novo conceito sociológico inicia o seu reinado: a rotina.

Este conceito começou no emprego mas rapidamente tomou conta da vida das pessoas. Primeiro, nos processos mecânicos que tiranizaram o trabalho dos indivíduos, depois no estilo de vida que foram obrigados a levar e finalmente naquilo em que a vida pessoal e afetiva de cada um se tornou.

Quando cada um de nós se deu conta que a rotina tinha chegado à sua vida pessoal, a rotina deixou de ser um bem indiscutível. Passou a ser analisada, questionada, criticada.

Contudo, não devemos negar a evidência: a rotina fez e faz muito pelo ser humano. Rentabilizou-lhe o tempo, organizou-lhe a vida profissional e social, ajudou-o no seu crescimento, tornou-o confiante e confiável. Os seus méritos são inúmeros e não são descartáveis. Além disso, toda a rotina tem a sua beleza. Há uns meses atrás li um poema, dum autor desconhecido, muito elogioso para a rotina que não resisto a citar:

“A ideia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do jornal é o facto
A celebridade é a rotina do boato
A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é o rock
O coração é a rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida
O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
Julieta é a rotina do beijo
A rotina da boca é o desejo
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza”

O problema é que a rotina não é aplicável a todas as dimensões da nossa vida. E quando deixamos que a nossa preguiça ontológica nos capture, permitimos que a Rotina se instale na nossa vida íntima e afetiva. E aí começam os problemas, ou melhor, as frustrações.

O primeiro erro que cometemos é deixar que a Rotina colonize a nossa liberdade. Richard Bach dizia que para se viver feliz era necessário sacrificar-se a rotina, mas isso quase nunca era um sacrifício fácil. Até porque a rotina traz sempre a garantia do resultado alcançado.

A solução é fazer novos caminhos, permitir-se perder-se, quebrar a rotina, visto que ninguém encontra um atalho sem se perder antes.

As pessoas não são rotina. São feitas de sentimentos, de emoções, de problemas, de diferenças. Em muitos momentos, a déspota rotina que escolhemos para a nossa vida não autoriza que vejamos os outros deste modo. Infelizmente apenas reparamos nisso quando a rotina dos outros nos mostra o vazio mecânico em que nos tornámos.

Quando nos acomodamos à rotina deixamos de viver, perdemos, pouco a pouco, o pulso de nós mesmos, deixando o nosso processo de crescimento à mercê das influências e das circunstâncias alheias. Hábito e rotina têm um inacreditável poder para desperdiçar e destruir.

Em muitos casos, a rotina tira valor às coisas. Talvez por isso, a rotina seja hoje citada como uma das causas mais fortes da separação dos casais. Isto acontece porque na rotina, as pessoas criam padrões repetitivos, enquanto na incerteza, os indivíduos têm instintos inovadores. E o instinto é uma das mais importantes regras de sobrevivência…

Talvez por isso tenha medo do tédio e da monotonia, da “mesmice”, da rotina. Sinto-as como um desperdício de vida, uma desistência, uma anulação.

Gosto de percorrer caminhos desconhecidos, tenho simpatia pela inovação, pois é através das novidades que o mundo gira.

Sei bem que a rotina faz parte da vida, mas isto não quer dizer que os nossos atos tenham de ser feitos na mesma sequência. É necessário ter capacidade para nos surpreender.


Se o ser humano fosse para viver de rotina, no lugar do cérebro teria um chip.

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