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quinta-feira, 20 de março de 2014

FESTIVAL DA CANÇÃO (FESTIVAL DA REINAÇÃO)

ANABELA BORGES
DR
Gosto muito do mês de Março. Março é um mês muito mimoso e cheio de esperança. Quase tudo cabe em Março: o dia do Teatro, da Poesia, da Árvore, da Floresta, do Pai, da Felicidade, da Primavera. 

Em Março cabe uma primavera inteira. Muita gente faz anos em Março, pelo menos muita gente que eu conheço. É bom viver, a cada ano, o Março das nossas vidas. 

Em Março usa ser também o Festival da canção. E isso, que ao longo dos tempos sempre foi um motivo de festa, cada vez mais tem vindo a tornar-se num atropelo de Março, um encontrão no mês, a dar-lhe um abanão e a deixá-lo sobressaltado. O festival tornou-se na extensão dos programas de festas e romarias de domingo à tarde, um entretenimento de baixo custo. Hoje não existe programa em direto sem uma linha de valor acrescentado.

Quando eu era pequena, nos pós 25 de Abril de 1974, toda a gente via o Festival da Canção. Era motivo de conversas, alegrias, um acontecimento popular de grande impacto junto da população portuguesa e europeia. 

O festival era um acontecimento. Havia sempre o factor novidade, era uma lufada de ar fresco, ditavam-se as modas do panorama musical, mas também o estilo da época trespassava pelas melodias e roupagens dos festivais. E nós queríamos vestir como os cantores, usar os penteados dos cantores e cantávamos durante muitos meses, as canções dos festivais. Aliás, como é sabido, muitas das canções ficaram para sempre gravadas nas memórias dos que seguiam os festivais. Eu e os meus amigos de infância fazíamos o nosso festival, com tudo improvisado, tudo a que tínhamos direito: o estilo, o palco, o apresentador, o júri.

O festival era um filho pródigo da liberdade. 

Infelizmente, hoje, vai tudo em sentido contrário, vamos embalados numa mediocridade que nos é impingida. A cultura está doente. Não me venham dizer que dão ao povo aquilo que o povo quer. Não dão! Dão-lhe o que há de pior em matéria cultural. As pessoas são o que são, não nos subestimemos. Se nos derem boa música, bons livros, boas exposições, bons filmes. Se se cultivar – é isso a cultura – o gosto pela qualidade, desde sempre, desde a infância, cada um terá na sua mão (sobretudo na cabeça) o poder de fazer opções. Não há investimento na cultura. Muitos de nós sabemos que não há interesse em cultivar as pessoas culturalmente, em desenvolver cultura. 

A vitória da canção pimba-pimba-pimba neste festival da canção revela muito bem ao que estamos reduzidos em termos culturais e, moralmente, muito em baixo. As pessoas ligam para linha de valor acrescentado e as televisões ficam todas satisfeitas com a indolência a que a cultura está devotada. 

Assim vão as “águas de Março”.

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