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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

UM PODER DE QUE NINGÉM FALA

Gabriel Vilas Boas
DR
Ao longo dos tempos, mas em especial durante o século XX, a mulher tem vindo a ganhar um poder merecido na sociedade, na política, na cultura, na economia, nos direitos. Espanta que o processo tenha sido longo, mas ainda está muito longe de estar concluído na Ásia ou em África. É natural que elas falem dele com orgulho, porque, infelizmente, tiveram de o conquistar, como é natural que os homens assobiem para o lado, procurando alijar e disfarçar uma culpa histórica. 

Orgulhosamente, as mulheres ufanam-se das posições que vão ganhando nos cargos públicos, nas empresas, nas organizações. Sublinham as mudanças sociais e mentais que a sua independência económica trouxe. Normalmente costumam acrescentar que o fizeram com o celebérrimo toque feminino e sem abdicar da família ou da vida afetiva. Não falam dos custos da operação como não falam como lhes doem os pés ao andar de saltos altos. Enfim, é um orgulho com toque feminino…

O que me interessa destacar é outra realidade: elas mudaram a face da economia. Não me estou a referir aos cargos de chefia que já ocupam nem à paridade de salários ou aos empregos que desempenham. Também não quero significar que elas são excelentes a gerir o orçamento familiar, ideia muito pueril e masculina. 

Quando eu digo que as mulheres mudaram a economia quero dizer que elas transformaram radicalmente a estrutura económica ocidental. Caminhem por uma cidade e vejam a quantidade de negócios que dependem grandemente do consumo feminino. Passeiem por um shopping a várias horas do dia e observem quem anda às compras. Agora reflitam na quantidade de shoppings que existem, por exemplo, em Portugal. Pensem nos custos de arrendamento e manutenção dum espaço comercial, onde é necessária uma faturação acima dos dez mil euros mensais. 

Façamos ainda o seguinte exercício mental (e académico, porque isto jamais acontecerá): durante um ou dois meses, as mulheres deixavam de fazer as suas habituais compras (excluo aqui os supermercados, por razões óbvias). Seria o desespero total para 80% dos comerciantes e um tsunami na economia real. Não voltaríamos a falar da sexta-feira negra de Wall Street, porque o paradigma mudaria. 

Acrescento ainda um outro dado: se elas o gastam é porque elas o ganham. E fazem circular o dinheiro. E isso é bom para a economia. Muito bom, aliás. Daqui facilmente se conclui que as mulheres não só mudaram a cara da economia, como a lideram, ainda que não tenham muita consciência disso. O que não é mau de todo…

Curiosamente não constituem um grupo de pressão a nível económico. Não fazem lobby. Há o grupo da restauração a querer reduzir o IVA, o pessoal do golfe que já tem iva reduzido, os patrões das transportadoras irritados com os impostos excessivos, os agentes desportivos que lamentam os balúrdios que pagam ao fisco e até os escritores, pintores e atores dizem que vivem na indigência porque os impostos lhes tiram público. Não existe o loby das sapatarias, das bijutarias, das cabeleireiras ou do pronto-a-vestir. Se existisse, seria poderoso. 

E quando as mulheres tiverem a plena consciência da sua relevância na economia dos países e o assumirem sem constrangimentos, a sociedade terá padrões bem diferentes dos atuais.

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