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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

OS GÉNEROS LITERÁRIOS CULTIVADOS POR ANTÓNIO CABRAL: UM HOMEM DURIENSE


Alina Sousa Vaz
DR
Como havíamos dito no final da última crónica apresentada a público, António Cabral, enquanto escritor, deixou um legado incontornável que em muito contribuiu para o enaltecimento da Cultura Popular Transmontano-Duriense. O património imaterial da região ficou, assim, com uma riqueza inegável, pois através da sua obra diversificada, ao nível de géneros, podemos verificar as características ímpares que tão bem traduzem a problemática da ruralidade, muitas vezes em contraponto com a vida na grande cidade.
Desta forma, António Cabral, enquanto etnógrafo e dirigente do Centro Cultural Regional de Vila Real, teve uma ação importante, pois ao fazer uma recolha exaustiva dos jogos populares contribuiu para que nenhum dos aspectos ancestrais e tradicionais dessas manifestações desaparecesse.
Relativamente a este assunto, o estudioso considerava que era de extrema importância o contributo dos grupos folclóricos ou etnográficos, como lhe prefere chamar, já que nas atuações pelo país e pelo estrangeiro promovem e dinamizam a cultura da região ao levarem consigo os trajes típicos, os apetrechos que caracterizam as vivências das suas gentes, quer no trabalho, quer no lazer.
Por sua vez, enquanto dramaturgo, António Cabral considera “O teatro a arte da palavra em ação”. (…) “é sem dúvida uma das melhores formas de retratar e questionar a humanidade e de proporcionar um autêntico prazer artístico às multidões” (…) “ Numa palavra o teatro é fundamentalmente jogo – o jogo da vida”. (Cabral S/d: O jogo e o tempo).
A título de exemplo, consideremos a peça “Virá um dia virá”, onde o dramaturgo denuncia as injustiças sociais para com o pequeno agricultor e camponês duriense, pois na hora de venderem os produtos são aqueles que apresentam maior dificuldade no regatear o preço. António Cabral evoca através de uma cantiga, logo no início da peça, a necessidade de uma determinada ação da sociedade para que as coisas mudem:

 (Cantiga)
O que é preciso na vida
É adivinhar o futuro,
Fazê-lo dar umas voltas,
Ter-lhe o freio bem seguro.

Ter-lhe o freio bem seguro,
Pô-lo de patas pró ar
E pôr as coisas no sítio
Em que deviam estar.

Em que deviam estar,
Não no sítio em que estão.
Para isso, meus amigos,
Só com a revolução. (Cabral 1977: 102-103)

Ao nível da ficção, António Cabral, tem, também, como inspiração o quotidiano da região do Douro. Por exemplo, no romance A noiva de Caná retrata-se a história de uma mulher de espírito forte e de sedutora beleza. Ela encarna o próprio espírito da quinta, com a rotação do trabalho das vinhas: a poda, a sulfatação, a vindima, o esmagar do mosto, até ao copo concentrado de sol e de fraga, doce, celestial e ao mesmo tempo terreno como a vida e a morte.

Como poeta mantém com os outros homens um pacto de união, pois através da sua arte e da sua voz mostra uma consciência solidária cantando com e para o seu povo, as dores, as lágrimas e angústias do Douro humano. Segundo o poeta, a região do Douro/duriense é “o paraíso do vinho e do suor” fortemente marcada pelo rio Douro, que lhe corre nas veias com todo o seu caudal de sofrimento, mas também de esperança. Este sentimento revela-se no trabalho árduo dos “homens de camisas empastadas” (Cabral 1999:13) que de sol a sol redram “videira a videira,/ pegados à enxada,/ comendo poeira”(Cabral 1999:47).


Assim, não será por isso exagerado dizer que António Cabral é por direito próprio uma voz do Património Imaterial duriense, um poeta da paisagem humana e natural da região do Douro, um homem que, pela escrita, soube, de modo original, deixar para a memória futura a importância cultural do Douro.

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