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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ENGOLIR SAPOS

Gabriel Vilas Boas
DR
Quem já não disse por uma vez: "Comigo isso não ficava assim!" ou "Eu jamais aceitaria tal situação!? Pois... quase todos!
E quase todos já tivemos que engolir muitas dessas certezas.
Com o passar do tempo fizemos por esquecer a determinação com que abordávamos as situações, as atitudes, as relações.
E por que desapareceu essa determinação implacável com que julgávamos tudo e todos, onde o mundo só tinha duas cores? Há dezenas de razões.
Cada um encontrou as suas.
No meu entendimento, cada um largou aquela pose irredutível quando percebeu o quanto gostava daqueles que o rodeavam e que também eles tinham aqueles defeitos que havíamos excomungado do nosso Paraíso.
Depois houve outro momento: quando fomos nós a meter o pé na poça. Aí o mundo ganhou outras cores além do branco e do preto e nós passámos a apreciar o cinzento. Teve de ser!
Quem não recorda, com um sorriso compreensivo, como julgava indecoroso invetivar alguém desconhecido com aqueles nomes feios e ordinários e que jamais pronunciaria? Para muitos o "jamais" perdeu-se num qualquer campo de futebol onde a frustração da derrota se confundiu com a injustiça e derrubou um dos bastiões sagrados.
Quem não achava ridícula e cega a atitude dos amigos a defender as atitudes inqualificáveis dos filhinhos e jurou que nunca se prestaria àquele papelinho? Para muitos, essa arrogância terminou quando os filhos entraram na escola, para outros foi ainda antes.
Quantos de nós não classificava a falta de pontualidade como uma indesculpável falta de respeito? Não preciso de dizer que sobram poucos desse imenso grupo.
Não quero desmoralizar ninguém mas a ementa dos sapos ainda vai na entrada...
Os mais pesados começamos por digeri-los no trabalho, os mais indigestos nas relações pessoais.
Ficámos a conhecer o mundo do trabalho e facilmente lhe chamámos selva. E não precisámos de trabalhar em Wall Street. A conivência com os salários paralelos, a fuga aos impostos, a não partilha de informação entre colegas de trabalho... Haveria toda uma panóplia de exemplos bem mais escabrosos para citar, mas estes apanham uma imensa maioria que tem vindo a crescer. Sempre dissemos que isso não aconteceria connosco. Hoje encontramos mais silêncios comprometidos do que palavras quando abordamos o assunto.
Acho mesmo que a questão agora se coloca apenas no campo da legalidade. Recordo apenas que o início desta história nada tinha que ver com leis, mas com valores éticos.
Deixei para o fim os sapos que engolimos nas relações pessoais. Com os amigos e com a família. São os maiores. Alguns tornam-se impossíveis de engolir, mas muitos há que nos foram impostos de uma maneira brutal. Não deixamos de gostar de um amigo quando percebemos que ele fugiu ao fisco, não despedimos a nossa companheira de vários anos quando percebemos que afinal ela não gastava parte significativa do ordenado no médico, mas antes na boutique. Já nem refiro as esposas que tiveram de lidar com alguns deslizes dos maridos. "Eu era incapaz de desculpar uma traição!" Pois sim. Sempre acharam isso, até ao dia em que perdoaram. Não foi uma decisão fácil de tomar, mas tomaram-na. E viveram com as consequências disso. Com dúvidas, incertezas, claro, mas acharam que valia a pena.
As certezas absolutas nas relações, como em quase todo o resto, são tão perigosas como rasteiras. A maneira como gerimos os nossos afetos obriga-nos, muitas vezes a jogos de cintura tais que mais vale não enunciar tantas regras, para não termos de passar o tempo a incumpri-las. 
Aqui chegados, uma questão sobrevem: estamos condenados a engolir sapos? Deixamos de ter valores, ética, princípios?
Nada disso. Primeiro não há nada de errado em engolir alguns sapos. Faz parte do nosso processo de crescimento. E às vezes engolir sapos significa tãosomente admitir que o outro estava certo. Além do mais, penso que muitos sapos nascem do facto de usarmos desde muito cedo palavras como: "sempre", "jamais", "nunca." Na maioria dos casos a realidade a elas subjacente não existe.
O problema não está nos valores, nos princípios, na ética. O problema está em que somos humanos. E muitas vezes isso significa falhar uma vez... vá lá, duas! Não significa falhar repetidamente, descaradamente e muito menos sempre.

Como muitos sabem por experiência própria, aqueles com quem nos relacionamos precisam duma segunda oportunidade, porque todos eles são imperfeitos. Mas nós gostamos deles. E se em algum momento tivermos de abdicar de algo por causa de um bem maior, abdicamos e...ponto final. Tem é de ser um bem maior, porque se não deixa de fazer sentido e os sapos asfixiarão a nossa alma.

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