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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

EM SENDO CARNAVAL, AS PESSOAS, QUERENDO, DIVERTEM-SE

Alegria, ENTRUDO, que amanhã será cinza.
adágio popular

Anabela Borges
DR
Representação da consciência colectiva, o Carnaval não deixa de ser uma festa de liberdade, onde quase tudo é permitido, e se afastam preconceitos durante cerca de três dias. E as pessoas, querendo, divertem-se! Daí que, quando queremos mostrar que devemos aproveitar o melhor da vida, tomou-se o hábito de dizer, ironicamente, que “esta vida são dois dias e o Carnaval são três”.

O Carnaval serve a miúdos e graúdos.

O Carnaval é o bode expiatório dos povos, cansados da vida rotineira de um ano inteiro, verdadeiras válvulas de segurança em relação aos sistemas de poder. Sinónimo de folguedo, máscaras e largueza de espírito, o Entrudo é uma forma de dar porrada na política, destaque às problemáticas sociais, ou simplesmente criar espaço para manifestações lúdicas e festivas.

Nas Crónicas & Companhias do Minho, podemos ler: “Por isso, as máscaras, a censura popular e a moda colectiva de se parodiar toda uma existência satirizando-se, ridicularizando, causticando, virando-se, praticamente, tudo do avesso: os homens viram mulheres; as mulheres, homens e a máscara é a caricatura da própria vida local.”

Quando eu era pequenina, o Carnaval representava um dos dias mais felizes da minha vida. 

Dias antes, cerca de uma semana antes, já corríamos a macaca, na escola. 

Não é bem sabida a origem deste costume, mas o jogo era levado muito a sério. Parece-me, agora, à distância que a memória põe no tempo, a primeira manifestação de guerra de sexos que vivi. Era uma autêntica guerra entre rapazes e raparigas, devidamente incentivados pelos professores (a professora das meninas e o professor dos meninos). Eram pequenos bonecos de lã, laboriosamente feitos por nós. As meninas levavam macacos machos e os meninos levavam macacos fêmeas. As histórias mais antigas remetem para bonecos feitos de palha.

É uma tradição que se perde no tempo, muito própria da minha terra. Contam os mais velhos que os bonecos, nas formas de homem e de mulher, representavam, simbolicamente, casais, que podiam ser namorados ou não, podiam andar desavindos, aproveitando o Carnaval para esgrimir argumentos ou reconciliar-se, ou podiam andar a pedir namoro, se bem que diz o ditado: “namoro de Carnaval, não chega ao Natal”. Mas como “no Carnaval ninguém leva a mal”, a rivalidade entre sexos servia de principal pano de fundo à libertinagem linguística e às atitudes quase proibidas ao longo de todo o ano. Era assim que as raparigas exibiam o boneco e havia uma perseguição de rapazes para o esfarraparem, como forma de protesto, o mesmo sucedendo com os rapazes, estes ainda mais atrevidos, pois muitas vezes levavam a macaca para cima dos ramos das árvores e esperavam que algumas das raparigas subissem para se apropriarem dela e eles aproveitariam para lhes espreitarem as pernas.

E é assim: eu cá não gosto que o Carnaval português seja abrasileirado, primeiro porque acho infinitamente mais interessante a nossa tradição dos trapalhões, dos bombos, das máscaras, dos gigantones, dos mascaréus, que era assim que chamávamos à forma como nos vestíamos de homem, de mulher, de velho, de rico, de pedinte, sempre com roupas dos adultos para parecermos mesmo ridiculamente tolos e, quanto mais não fosse, para nos rirmos de nós próprios; segundo, porque está sempre um frio de rachar pelo Carnaval, enfim, e as meninas por ali vão a sambar de coxa grossa e pele de galinha. O samba, que nada tenho contra a sua existência, poderia sempre ser guardado para as festas de Verão, para as romarias, que temos muitas no nosso Portugal, graças a Deus, enfim. 

Hoje, eu continuo a gostar do Carnaval. Mas já não o gozo como outrora. Agora, vejo-o mais como uma espécie de despedida do Inverno e o acolhimento da Primavera que há-de estar por aí a chegar, sentimento que, no fundo está também ligado às suas origens.

Gozem, gozem o Carnaval, que a seguir vêm as cinzas e essas são as cinzas das horas, à espera de melhores dias.

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