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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DA LEITURA

Anabela Borges
DR
Podemos ir a muitos sítios, podemos viajar, partilhar espaços e emoções, mas o regresso à escola, depois de cada interrupção, tem um cheiro especial que retemos, para sempre, na memória.

A escola da minha memória cheira ao papel das sebentas e ao uso dos manuais passados de mão em mão, às aparas da madeira dos lápis acabados de afiar, aos atlas que se desdobravam do mofo guardado no tempo, e aos pedacinhos minúsculos de borracha que inundavam a sala toda, que ficavam esmagadas no meio dos livros e cadernos, colavam-se à sola dos sapatos e perdiam-se nas rasuras do soalho, de tanto se apagarem os números incorretos ou as palavras de desenho imperfeito, por força de se escrever com o primor que era imposto pela professora. As escolas são os livros. 

Há uns tempos, um senhor ancião com muita sabedoria, chamado José Hermano Saraiva, dizia que as escolas são os braços maternais. E eu achei aquilo bonito e muito verdadeiro. A Escola é feita de escrever, de dizer, de ouvir, de partilhar, de ler e de contar. E, nesse labor incessante, a Escola consegue abraçar, com os seus braços maternais muito compridos, todos os meninos e meninas, que são os seus filhos e filhas.

Quando eu era pequenina, os livros de literatura eram bastante raros, porque havia poucos e nem toda a gente tinha a possibilidade de os adquirir. E também havia muita gente que não sabia ler e que não tinha acesso aos livros e à leitura. De vez em quando, alguém me oferecia um livrinho infantil, pequeno e muito fininho – muitos deles não mediam mais do que 15 centímetros! – e eu ficava deliciada a examinar as suas poucas páginas e a observar, atentamente, as imagens, porque também sempre apreciei muito a pintura, o desenho e a ilustração. E assim me contentava em folhear, vezes sem conta, os mesmos livros, encontrando sempre um pormenor, fixando-me numa determinada palavra, descobrindo sempre uma coisa diferente, como um segredo que estivesse guardado.

Uma vez, o meu pai comprou uma coleção de livros a um desses vendedores que andam de porta em porta. Eram uns livros muito preciosos, com uma bela encadernação e letras douradas, e tinham um efeito quase só decorativo. Foi então que, praticamente às escondidas, eu ia folheando esses livros – lembro-me, particularmente, de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Não era que eu entendesse muito das histórias que esses livros contavam, e o mais certo, se me vissem a lê-los, seria dizerem-me, prontamente: “Esses livros não são para a tua idade, porque têm palavras muito difíceis para tu entenderes. Pousa-os, para não se estragarem”. E, quando eu podia, lá voltava a pegar neles e mastigava as palavras, soletrava-as, tentava dar-lhes um sentido próprio, assim descobrindo e aprendendo sempre uma coisa diferente. Isso! Como um segredo.

Hoje, a minha vida não faria sentido sem os livros. Por isso, leiamos, leiamos muito para enriquecermos como indivíduos e como nação.

Os livros são segredos de papel, que só são desvendados quando os abrimos e os deixamos falar. Agora, silêncio: vamos ouvir o que este livro tem para dizer.    


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