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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CULTURA DE VIOLÊNCIA

Gabriel Vilas Boas
DR
A violência é um ícone das sociedades modernas.
Não falo do conceito clássico que habitualmente associamos a conflitos armados ou da repressão policial em regimes pouco democráticos. Não falo da violência que vemos nas ruas de Kiev ou do Cairo. Refiro-me antes a um modo de estar em sociedade que primeiro tolerou, depois aceitou e agora quase que incentiva a agressividade.
 Para muitos a violência/agressividade tornou-se quase uma estética de afirmação pessoal, um estilo de vida, um modo de “marcar território” no trabalho e nas relações.
As escolas têm cada vez mais dificuldades em contê-la entre alunos, os pais receiam falar delas aos filhos com medo de serem ridicularizados, os media assobiam para o lado. Acho que esta atitude titubeante de pais, escola e comunicação social tem que ver com a consciência pesada que todos sentem em relação ao assunto.
 A televisão cavalga a euforia de poder que a violência proporciona em tudo o que transmite: filmes, séries juvenis, programas informativos, desenhos animados. Depois, hipocritamente, procura redimir-se com debates pretensamente moralistas chamando à discussão os psicólogos, os técnicos da segurança social, os agentes da autoridade, os pais, os jovens… Jamais se questionam nem permitem que os questione
A escola sente que não vale a pena. Vislumbra tarefa hercúlea e endossa responsabilidade às famílias, à sociedade, às televisões. Promove umas palestras sobre violência no namoro, controla a agressividade no recreio e dá o trabalho por concluído. Faz de conta que nada tem que ver com o assunto, mas tem. A escola moderna promove duma maneira absurda a competitividade. Números, resultados, sucesso, rankings. Apenas isso parece interessar. E a mensagem passa claramente do diretor para os professores e destes para os alunos. Da competitividade à agressividade vai um passo muito pequeno. Se a isto juntarmos a frustração de objetivos não alcançados, depressa chegamos à violência. Que não é física, mas psicológica. Muitas jovens vivem profundamente infelizes e deprimidos com este estilo educativo moderno que fez da cultura do resultado a única coisa que interessa em educação.
Facilmente chegamos a casa e à família. Cansados, desorientados, encurralados entre televisões sensacionalistas e agressivas e uma Escola que faz o culto da competitividade, os pais não sabem como atuar. Muitos deles têm já medo dos filhos. Outros nem reparam que eles existem e bombardeiam-nos com mais violência. É o pai que bate na mãe; é a linguagem desbragada; é a exigência de resultados escolares a todo o preço; é o abandono dos compromissos assumidos; é a falta de respeito, carinho e amor entre familiares, é…
Há uma enorme guerra civil que nos destrói a alma diariamente e não permite que sejamos felizes. Por isso penso que devemos reorientar o nosso estilo de vida. Perceber para que serve, afinal, uma escola, uma família, uma sociedade. Uma família deve incutir valores, uma escola serve para ensinar e educar, a sociedade imprime coerência coletiva a um conjunto de pessoas que quer viver em comunidade. Isso não se faz segundo as leis da selva.

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