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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

QUEM CONTA UM CONTO

“Se há um apelo que eu faça, é que os jovens chamem a si assegurar que recebem a melhor educação possível para que nos possam  representar bem no futuro, enquanto líderes. ”
Nelson Mandela
Anabela Borges
DR

Há precisamente um ano atrás, há precisamente um ano, eu escrevia qualquer coisa como: “Hoje é o dia 12/12/2012. Nem as minhas mãos se quedaram lívidas, nem o rio deixou de correr, nem o mundo acabou”.
Eu cresci rodeada de histórias.
Quando eu era pequena, era costume as pessoas, nos seus afazeres diários, em comunidade, em autoajuda, entreterem-se a contar histórias, a cantar estados de alma, rimas e lengalengas, a transmitir saberes antigos, e a fazê-los passar de geração em geração pelo fio tremeluzente do tempo. E já se sabe: “quem conta um conto”…
E tudo isso leva-me a pensar que as crianças e jovens de hoje, com tanta proliferação literária e com bibliotecas escolares tão bem apetrechadas, estão rodeados de livros mas pouco rodeados de histórias. E isso acontece porque leem pouco. Se ao menos se dispusessem a ouvir os pais, os tios, os avós, aquele vizinho mais velho que passa as tardes na soleira da porta com o olhar baço perdido nas lonjuras dos dias. Se ao menos… Não deixariam morrer valores e tradições, reconheceriam as raízes da grande árvore que os gerou, assegurariam o transporte do legado que os conduziu ao que hoje são.
Em vez disso, o que acontece é estarem metidos num emaranhado de informação desnorteada, dispersa, pouco cimentada e nem sempre fidedigna. Estamos a criar seres desprovidos de memória colectiva, disco rígido sobre disco rígido, que ganham “vidas” na forma de aniquilar bonecos e arrecadar “bónus”, a qualquer custo, numa realidade que NÃO EXISTE, mestres do QWERTY, senhores tecnológicos de nada.
Na última edição do caderno “Cultura” do jornal “Público”, podemos ler que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais. De acordo com o inquérito “Eurobarómetro”, Portugal, a par da Roménia e da Bulgária, está nos mais baixos níveis dos índices culturais de toda a Europa e é o país onde há maior falta de interesse pela leitura.
Em Portugal, lê-se muito pouco, sendo que a maioria da população apresenta como justificação para não ler a falta de interesse.
Infelizmente, é verdade. Infelizmente, lido diariamente com essa realidade, mesmo apesar dos números, pois sou muito avessa a números – que (não nos deixemos enganar) estes podem ser tão traiçoeiros quanto as palavras.
É preciso mudar esta assustadora realidade. Há um ano atrás, segundo os dizeres de algumas culturas, o mundo estava para acabar. Não se cumpriu o vaticínio.
Mas hoje, um ano depois, o mundo diz adeus a MADIBA. Mandela estende o seu nome na vaga incessante (assim cremos) da eternidade. Há um legado que não pode morrer.
Como incutir nas crianças e nos jovens a importância da memória coletiva?
Contemos-lhes histórias e estórias e mais histórias e estórias. Haveremos de conseguir alguma coisa.

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