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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EDUCAÇÃO E LIBERDADE

Gabriel Vilas Boas
DR
Quando reflito racionalmente nos dois grandes valores da minha vida, chego friamente a duas palavras: educação e liberdade. Mas não há nada de emocional ou afetivo no meu raciocínio. E tenho pena que assim seja. 
Vivi sempre em democracia, onde a expressão das ideias é livre; cresci numa sociedade que valorizou a educação, duplicando o número de anos da escolaridade obrigatória. Talvez por isso senti a educação e a liberdade como algo natural e básico da sociedade em que me insiro. Por nunca sentir a sua falta, pouco valorizei estes valores. 
Esqueço frequentemente que faço parte da primeira geração de portugueses que usufruiu destas duas preciosidades em simultâneo. Curiosamente, pertenço a uma geração que se queixa tanto…
Olho novamente estas duas palavras – educação e liberdade – e penso naqueles que são mais velhos do que eu vinte anos e naqueles jovens e adolescentes a quem dou aulas… e essas duas palavras ganham tonalidades felizes e um brilho mais intenso. Ganhei-lhes respeito e um carinho tão forte que as amo sem qualquer hesitação.
Penso mais uma vez nos mais velhos, naqueles que agora se reformam sem dinheiro para remédios quanto mais para uma vida materialmente digna, a quem o nosso desprezo e ingratidão assassinam a alma e o coração… e percebo que eles sabiam perfeitamente o valor incalculável da liberdade e educação. Conquistaram-na, ano após ano, para a depositarem nas minhas mãos. Compreendo a desilusão que sentem quando olham o destino que a minha geração deu a tão precioso tesouro.
Não só não percebemos o imenso valor do que nos legaram como fomos incapazes de o ensinar à geração que veio a seguir. E, maldade das maldades, pusemos o tesouro no prego! Ele está hipotecado. Agora preparamo-nos para lhes negar o acesso a ele, em definitivo. 
Criticamos aos jovens a soberba com que desprezam a liberdade; apontamos-lhes a estupidez de não investir na sua educação. É, de facto, uma burrice, mas a culpa não é apenas deles. É difícil sentir o sabor das coisas conquistadas quando elas nos foram dadas!
Expliquemos-lhes então que a alma da liberdade está na educação. Aquela que se aprende na escola, nos livros, na internet, nos museus, numa sala de teatro ou numa conversa com uma pessoa mas velha. 
Somos tanto mais livres quanto mais cultos. Aquele que aproveita a escola torna-se infinitamente menos dependente da chantagem do outro ou do dinheiro; aquele que se habituou a pensar por si, a pesquisar a informação, a confrontar opiniões, percebe claramente a diferença entre informação e propaganda, rejeita a demagogia e está apto a construir uma sociedade mais solidária, materialmente satisfeita e com sede de evolução. 
Qualquer criança de África, Ásia ou da América do Sul percebe perfeitamente o que lhe faltou para fugir à única escravatura dos tempos: fintar a ignorância. É ela que aprisiona povos e gerações.
Por isso fico furioso quando ouço a defesa da privatização do ensino. Para quê? Para que os melhores de nós apenas atuem para os mais ricos de nós? Que indignidade! Não percebemos que privatizamos a liberdade das futuras gerações? Com que direito?!
Olho novamente os olhos cansados do velho que me pergunta onde está a herança que me deixou para os seus netos e… falta-me coragem e sobram-me remorsos para lhe responder. Já desperdicei tantos anos… 
Mas nunca é tarde porque o tempo é eterno!

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