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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

DE QUE SE FAZ UM REENCONTRO?

Anabela Borges
DR
De que se faz um reencontro?
De que cor se reveste? A que cheira? Que sabor tem?
As horas revestem-se de uma alegria genuína, na forma de um abraço consistente, como se fosse um gesto repetido todos os dias. 
O café tem o sabor intenso do princípio das coisas, porque nunca tinha existido esse sabor antes, antes do reencontro não tomávamos café juntas.
E os cheiros atravessam o espaço como memórias soltas que se vão juntando e formando histórias; no total, talvez um todo, uma história apenas. 
As horas não são as costumeiras, são as horas mágicas das conversas dos reencontros. 
Na pastelaria, o movimento da tarde, o entra-e-sai, o recolherem-se as pessoas no aconchego de um chá, de um café, de um doce – pássaros movidos no mesmo espanto de viver, como nós –, segue, independente do nosso tempo. O nosso tempo é outro: é o tempo de sentir, saborear e cheirar o reencontro. E, por meio de palavras quase ininterruptas, tentar batizá-lo, apelidá-lo, tentar nomear o nosso reencontro. 
Foi neste canto do mundo, nesta rede social, esta maldição que nos rouba tempo e nos faz questionar das existências reais das coisas, que tudo se arranjou. 
Mais de 20 anos separaram dois tempos, duas meninas seguiram seus rumos, em diferentes direções, uma mensagem, um clic, a dizer, “Sou eu. Estou aqui…”, marcou o reencontro.
O brilho dos olhos e brancuras sorridentes são talvez as cores que se guardam do tempo mágico do reencontro, e gestos que são lembranças dos dois cantos do mundo, do tempo que nos separou e nos uniu: livros, chocolates, café…  
Lá fora, a cidade, o rio. Hoje, eu acho que são eles que nos contemplam. 
E a despedida, tão apressada, quase desajeitada… um deslaçar de mãos, os cabelos voando desmanchados, cada uma de nós seguindo por lados opostos, o ajeitar dos casacos tocados pelo sopro agreste que o Inverno sempre traz à cidade, o rumor do rio que vai engrossando dos excessos do tempo velho – à espera da Primavera, como nós. 
As despedidas, se assim o quisermos, são momentos que devemos manter aquecidos num canto de nós, em espera.
FELIZ ANO NOVO!

*Escrito em Amarante, a 27 de dezembro de 2013, após um belo reencontro.  

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