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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

COISAS DE CANALHA

Gabriel Vilas Boas
DR
O ano novo leva pouco mais de duas semanas e quase todos já esquecemos aqueles ridículos votos de mudança de vida que fizemos sem a mínima intenção de os cumprir. Ainda se fossem os outros a fazê-los para nós... Entretanto Eusébio morreu e o país chorou as lágrimas regimentais, as homenagens sucederam-se e prolongaram-se até ao último Benfica-Porto. Mas aí terminaram porque the show musto gon on e no dia seguinte Ronaldo chorou as lágrimas mais felizes da sua vida e os portugueses acharam que tinham um bocadinho imenso daquele ouro. 

Só terça-feira é que houve pachorra para noticiar que um adolescente (podia dizer que era uma criança mas não quero ser faccioso como os jornais que o tratam por “jovem”) se suicidou sábado à noite, depois de no dia anterior ter sido humilhado no recreio da sua escola quando foi colocado em tronco nu, lhe baixaram as calças e lhe deram palmadas no rabo. Ele ficou em cuecas, apanhou a roupa, vestiu-se e foi para as aulas sem dizer nada. 

A direção da escola achou que aquilo não era nada de especial. “Coisas de canalha”. Sim, coisas de canalha! Até porque é normal os miúdos serem despidos e humilhados no recreio duma escola. Tudo normal como se eles fossem eles frequentadores de qualquer clube de stripetese. Acresce que naquela escola de Braga toda a gente sabia que aquele adolescente não perdia os telemóveis como dizia, mas que alguém os roubava. 

Mas isso não interessava nada aquele Diretor da E.B. 2/3 da Palmeira. Achava até normal que miúdo não se desse ao trabalho de denunciar os maus tratos sobre si ptraticados. Se calhar já sabia que o diretor achava tudo aquilo normal. Uma perda de tempo, essa coisa da denúncia. Nunca dá em nada. Toda a gente sabe disso…Talvez por isso o jovem decidisse pôr termo à vida. Por enforcamento. Que morte atroz! 

Foi preciso chegar o dia do funeral e padre da freguesia dizer aquilo que ia na alma dos colegas do menino de Braga para JN e CM correrem em busca da notícia. E foi aí que aquele diretor nascido da fina flor do entulho decidiu vociferar contra a comunicação social que já tinha a ousadia de falar de bullyng. Vá-se lá saber porquê. Para ele, a humilhação que o aluno da escola que dirige sofreu no dia anterior ao seu suicídio nenhuma relação tinha com o infeliz ato daquele menino de 15 anos. Na verdade “aquilo” não passou de coisas de canalha. 

Não lhe sobrou sensibilidade para mostrar o seu pesar pela morte dum jovem da sua escola, para deixar uma palavra amiga e de conforto à família ou aos amigos do rapaz. Nada disso, para aquele diretor tratou-se da morte dum aluno por enforcamento, mas a vida continua e a escola não tem nada a ver com isso. 

Como é que um tipo destes pode ser diretor duma escola? Um sítio onde se educa crianças, adolescentes, jovens; um sítio onde pretensamente se incutem valores como a solidariedade, a amizade, o companheirismo, o respeito pelo outro e pela diferença… Um sítio destes devia ser gerido por gente… quero dizer pessoas! Não parece ser o caso. 

Como o diretor só a GNR local que logo declarou que não se tratava dum caso de bullying. Para eles tratou-se de desgosto amoroso!!! Ou não fossem eles especialistas nas duas temáticas. Suicidam-se às dezenas rapazes de 15 anos por desgosto amoroso por aquelas bandas! Qual é a admiração? Felizmente o Ministério Público de Braga, a IGE e até o Ministro da Educação da Educação não pensam assim. Foram abertos inquéritos e o ministro disse que “quer apurar os factos” – não se deve estar a referir à morte, porque aí já está tudo apurado, infelizmente – e acrescentou que “atos de bullying são intoleráveis”. Mas isto é o ministro a falar, porque o diretor da E.B. 2/3 da Palmeira (Braga) desmente categoricamente que “esteja a decorrer na escola qualquer inquérito sobre bullying”. Acho que ele não sabe o que a palavra significa… só pode!

Não podemos recuperar aquele menino de Braga e isso é uma perda irreparável, dolorosa, profunda. Podemos evitar que haja mais Ricardos a suicidarem-se porque nenhum de nós quer verdadeiramente saber deles. 

Na verdade, o homem até tem razão: “isto são coisas de canalha”, mas no sentido que os lisboetas lhe dão. Para quem não souber: coisas de gente canalha.

P.S. Há dois dias a TVI lá resolveu dedicar 90 segundos ao caso. No mesmo dia em que dedicou 300 minutos a jogos de futebol. Mais de 100 à Casa dos Segredos e mais largas dezenas a telenovelas. 

90 Segundos!!!! Pensem nisto!

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