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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

APANHA DA AZEITONA DURANTE O TEMPO DO ADVENTO

Alina Sousa Vaz
DR
O Advento para os cristãos é um tempo de preparação com alegria, expectativa, durante o qual os fiéis esperam o nascimento de Jesus Cristo. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal, tendo início no domingo mais próximo do dia 30 de novembro (sendo conhecido tradicionalmente como o dia certo para montar a árvore de natal), indo até o dia 24 de dezembro, sendo o primeiro tempo do ano litúrgico. O tempo do Advento é para toda a Igreja, momento de forte submersão na liturgia e na mística cristã. Este período litúrgico evoca a dupla vinda de Jesus Cristo: a verificada em Belém, quando Ele veio ao mundo, e a que ocorrerá no Seu regresso no dia do juízo. Por isso a característica deste tempo, com o qual começa o ano eclesiástico, é a purificação como preparação para receber “aquele” que está para vir. O caráter penitencial do advento é acentuado pela cor litúrgica, que é o roxo e segundo a Bíblia, o Anjo Gabriel apareceu a Maria numa visão, dizendo que em breve ela daria à luz um menino, o filho de Deus que viria para trazer luz ao mundo. Esse tempo de espera é caracterizado hoje como advento. É o tempo de espera e esperança!
Por terras trasmontanas, as pessoas vivem ainda de acordo com os ensinamentos religiosos e o tempo festivo tem de facto outro encanto e simbolismo. Durante o tempo do advento o frio grita por entre os montes, mas homens e mulheres acarinham este tempo de forma especial porque cada pormenor natalício é preparado e vivido com emoção provocando nas gentes mais novas o verdadeiro sentido da época. Receber, compreender e transmitir as tradições é sem dúvida o verdadeiro papel de um bom transmontano. 
Neste tempo de preparação, em que cada um reflete e se posiciona perante o mundo que o cerca, o trabalho laboral nunca é descorado pelo lavrador transmontano. Nos dias invernosos e frios, homens e mulheres são observados pelos terrenos íngremes transmontanos como se de deuses se tratassem no alto do seu posto. E observam tudo!
A apanha da azeitona é a atividade por excelência neste tempo de frio. Cobertos de roupas quentes, a malga da sopa e o naco de pão com salpicão aconchega o estômago após a ventania gelada da noite. A labuta da apanha da azeitona é fruto da mestria da simplicidade da arte popular e apesar de ser um trabalho árduo o objetivo final é compensador. 
A relação que os trabalhadores mantêm com as oliveiras é milenar e para isso basta olhar para as nobres silhuetas cheias de história, mas rejuvenescidas a cada primavera. As oliveiras lutam contra o vento, a chuva, e o sol tórrido, contribuem para as cores da paisagem e dão frescura aos homens que esperam as mulheres com o almoço e o farnel nas cestas, embrulhados numa toalha, não esquecendo o garrafão de vinho. 
A oliveira é para os trasmontanos um símbolo de riqueza sendo o azeite a imortalização de uma cultura agronómica contribuindo para a história da humanidade. Os transmontanos sabem desta fortuna e de varas aos ombros, lá vão arrastando os toldes de extensões consideráveis, num mar irregular, vergastando a oliveira de cima para baixo, coagindo a azeitona a cair. O varejador rodopia, maneia a vara com mestria e as azeitonas amadurecidas pela natureza eram depois limpas da folhagem nos crivos para mais tarde serem sacrificadas pela mão do homem da azenha. Porém, há as azeitonas que voam quando são açoitadas pela vara e os terrenos húmidos e enregelados são vasculhados pelas mãos das mulheres que meticulosamente as apanham e as colocam em baldes. Se hoje, a azeitona que escapa é abandonada, outrora as crianças andavam ao “rebusco”, tarefa que não lhes agradava.
E é assim, por estes dias as vidas das minhas gentes na apanha da azeitona. Os dias de frio cortante e húmido enregelam-lhes os ossos, mas eles não esmorecem. A garra e a vontade de trabalhar para obter o produto precioso, o azeite, fá-los ultrapassar as dificuldades do dia. 
A fogueira, nas casas rurais, espera-os. O calor que lhes aquecerá as mãos aconchegará as suas almas permitindo que sejam felizes nas suas formas de vida. 
O período do advento é de concentração, de espiritualização, mas por terras transmontanas é, também, o período da apanha da azeitona que se transforma num ouro precioso, que para além de lhes regar as batatas, a couve e o bacalhau no dia da consoada, também lhes fará ganhar dinheiro para custear a vida diária.

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