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sábado, 21 de dezembro de 2013

TEMPO PARA NÃO ESQUECER

Anabela Borges
DR
Um sopro gélido anuncia o mês de Novembro, tempo para não esquecer.
A terra renova-se por dentro, revolvendo as entranhas, à medida que prepara os condimentos férteis que hão-de alimentar a fome dos vivos. O chão cobre-se de tapetes de coisas que já foram matéria viva, uma ou outra folha tentando ainda uma dança perdida ao sabor do vento, e o ar ganha o cheiro reforçado a terra molhada. Novembro é o mês da renovação, ciclo de vida, altura em que o Outono atinge o seu auge, os pássaros recolhem e os rios se vão fazendo misteriosos, envoltos na bruma dos dias.
Por vezes, em Novembro, invade-nos uma nostalgia que nada mais nos deixa que não seja frio e vazio.
Eu cá sempre achei o mês de Novembro o mais triste do calendário e, se querem saber, nunca soube muito bem explicar porquê. No fim de contas, talvez Novembro nos venha lembrar que é o mês da verdade.
Mas o tempo, esse ser enganoso, arrasta as pessoas como num encantamento, entretidas com o futebol, as aldrabices jornalísticas de garantir audiências, a política de faz-de-conta que em tudo ilude e engana, os programas televisivos mais deploráveis, degradantes e sujos que alguém poderia inventar – antes do jantar, depois do jantar, ao fim-de-semana, todos os dias. Na verdade, são crianças e famílias inteiras suspensas no tempo, a assistir. Na verdade, a qualquer hora: na hora em que as crianças regressam da escola, na hora em que devem escovar os dentes, na hora em que devem estudar e ir para a cama com um livro para ler.
Mas, assim mesmo, Novembro acorda-nos para realidades cruas que não queríamos ver. É mês para não esquecer: mês de Santos e de Finados; mês de lembrar o massacre em Dili, nossa Timor, que já leva vinte e dois anos sobre o horror que a assolou.
Eu também tenho as minhas coisas para não esquecer em Novembro. Infelizmente, direi.  E aquilo que mais me marcou, nesta semana, foi a passagem, rude, trágica e intempestiva, do tufão  Haiyan, nas Filipinas. Tão cedo, o tempo não apagará o opróbrio, as horas dramáticas, a destruição, destroços do mais potente de todos os poderes – o da Natureza. A Natureza semeia horrores para lembrar aos Homens como são pequeninos, para abanar as suas vidas e lhes retirar os entes mais queridos, a comida e a bebida, o tecto, a dignidade. Às vezes, calha de a Natureza fazer isso em Novembro.
E, em cima do auge da tempestade, do barulho ensurdecedor do vento, dos gritos que se ouviram, últimos no mundo dos vivos, ainda assim, sempre alguma voz se levanta dos escombros e diz: “Estou vivo”.
E, dentre esses vivos, cada um segue com a sua história para contar, com uma vida virada do avesso, cheia de dor e obstáculos, para reconstruir.

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