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sábado, 11 de maio de 2013

PAULO SILVA: «UM MÚSICO FAZ-SE DE 10% DE INSPIRAÇÃO E 90% DE TRANSPIRAÇÃO»


PAULO SANTOS SILVA

Paulo Nuno Ferreira dos Santos Silva nasceu a 27 de setembro de 1971, na freguesia de Cedofeita, na cidade do Porto. Licenciado em Educação Básica, Variante de Educação Musical pela Escola Superior de Educação do Porto, encontra-se atualmente a lecionar educação musical na EB 2.3 de Amarante, onde se encontra há 2 anos pelo facto de ter ficado com horário zero na escola EB2,3 de Marco de Canaveses, onde é professor do Quadro de Nomeação Definitiva: “Sou professor há 15 anos. Já lecionei na EB2,3 de Monção, EB2,3/S de Celorico de Basto, EB2,3 de Tangil (entre Monção e Melgaço), EB2,3 de Caíde de Rei, EB2,3 de Marco de Canaveses e, agora, EB2,3 de Amarante. Lecionei, também, durante 4 anos em regime de acumulação no Externato das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, no Porto”.
Nesta edição quisemos perceber como nasce o fascínio pela música de Paulo Silva e, como é ser músico na contemporaneidade


O fascínio pelas artes


Paulo Silva afirma que a paixão pela música surgiu naturalmente: “por um lado, talvez por ter dois irmãos mais velhos que são músicos e professores de música. Por outro, os meus pais sempre fizeram parte de coros amadores (quer na igreja, quer fora dela), o que fez com que a casa onde nasci e cresci tenha sido uma casa sempre muito frequentada por músicos e pessoas ligadas à música”. Confidencia que “na casa onde nasci e cresci no Porto, o piano ficava próximo da porta da rua e ainda hoje pessoas que eram minhas vizinhas na altura, dizem que a imagem de marca daquela rua era passar à nossa porta e ouvir os meus irmãos a tocar piano”. O fascínio pela música fez com que estivesse ligado a vários projetos, onde se destaca o Canto Nono: “O Canto Nono é um grupo vocal composto por oito vozes (quatro vozes femininas e quatro vozes masculinas), que se dedica a fazer música a cappella (sem acompanhamento instrumental). Foi no Canto Nono que penso ter atingido a minha maior satisfação e realização pessoal, enquanto músico. Foram anos muito intensos em que preparamos, entre muitas outras coisas, um espetáculo para a Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura intitulado Porto 2001 FM Stereo. Este espetáculo veio a ser gravado em CD, tal o sucesso que gerou. Este espetáculo e este projeto permitiram-me conhecer e trabalhar com grandes nomes da música portuguesa, como por exemplo José Mário Branco (que foi o diretor artístico do espetáculo e que me deu mais tarde a honra de participar na gravação do seu último trabalho Resistir É Vencer), Jorge Palma, Sérgio Godinho, Filipa Pais, Rui Veloso, Rui Vaz e José Manuel David dos Gaiteiros de Lisboa, a par de outros menos conhecidos do público mas que são excelentes músicos com quem aprendi muito. Tive, também, a possibilidade de realizar concertos na Holanda e na Alemanha, que me permitiram perceber a forma como as pessoas destes países encaram a música e reconhecem a qualidade dos projetos, ainda que se exprimam numa língua que não é a deles”, expõe o entrevistado. Todavia as aptidões para as artes não se ficaram apenas pela música: “pratiquei ballet clássico durante 14 anos (entre os 7 e os 21 anos), numa altura em que o preconceito para com o homem na dança era, ainda, fortíssimo. Essa ligação ensinou-me muito sobre disciplina e rigor, que são conceitos que tenho procurado ao longo da minha vida aplicar em tudo o que faço”. Este seu gosto pela dança fê-lo, recentemente, retomar de alguma forma essa ligação, ao frequentar com a sua esposa as aulas de Danças de Salão, na Academia de Dança de Amarante. A música como forma de arte: “A música, como qualquer forma de arte, envolve sentimentos e como tal está intimamente ligada à paixão. Costumo dizer muitas vezes, que um músico se faz de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Acontece, é que os 90% da transpiração são muito duros. Envolvem muito trabalho, muita dedicação, muito empenho, o que, por vezes, nos leva a ter de fazer escolhas e a tomar opções que nem sempre são fáceis. Tudo isto, só se consegue se tivermos uma enorme paixão por aquilo que estamos a fazer. Claro que há instrumentos que são fáceis de executar, como é o caso da flauta de bisel e dos instrumentos Orff que nós utilizamos nas nossas aulas, que qualquer um com o mínimo de interesse e empenho consegue aprender. Já com outros instrumentos, o caso muda substancialmente de figura”. E os filhos, nutrirão as mesmas aptidões? “O João Francisco tem 11 anos e a Maria Luís tem 5 anos. O mais velho faz natação e a mais nova anda no Ballet. É curioso que nem ele nem ela, demonstraram, até agora, vontade de aprender um instrumento musical, embora isso já lhes tenha sido perguntado várias vezes. O Francisco, como anda no 6º ano, toca flauta de bisel e é um excelente aluno na disciplina de Educação Musical. No entanto, procura estudar sem ser na minha presença e só me procura quando tem alguma dificuldade ou quando a peça já está pronta para eu ouvir. Curiosamente, gostam os dois muito de cantar (por vezes passam horas a cantar na consola de jogos) e, na minha opinião isenta até cantam bem. No entanto, não gostam muito de se expor e cantar sozinhos em público. Isso, acho que está no momento, fora de questão”.

 Ser docente de 325 alunos
"Tudo menos fácil! O facto da disciplina de Educação Musical ter perdido 45 minutos semanais, fez com que passássemos a ter, no meu caso, 15 turmas em vez das 8 ou 9 que tínhamos. Mesmo estas 8 ou 9 turmas, já resultaram do fim da Área de Projeto que, segundo alguns, não servia para muito mas onde eu vi serem desenvolvidos projetos muito interessantes para os alunos. Além das horas de trabalho efetivo na escola, são muitas as horas que em casa disponho a preparar as aulas e as propostas de trabalho para os alunos. Os ritmos de aprendizagem e os interesses dos alunos e das turmas, não são os mesmos, logo compete ao professor estar atento no sentido de adequar as atividades que desenvolve aos alunos e às turmas que tem, de modo a mantê-los motivados. A esse respeito, gostaria que quem afirma que os professores trabalham pouco e beneficiam de muitas regalias, pudesse em primeiro lugar tomar contacto com a realidade e, só depois, opinar. Ser professor nos dias que correm, não é fácil. A escola mudou, os alunos mudaram, as famílias mudaram e a própria sociedade mudou. O professor tem de se manter permanentemente atualizado para poder acompanhar os seus alunos, nomeadamente, ao nível das novas tecnologias. Por outro lado, somos seres humanos que também temos uma família, filhos, a quem temos de estar presentes em todos os momentos”, assere. O tempo dado pelo Ministério de Educação para as aulas de música: “Os 45 minutos semanais para o 7º e 8º ano e os 90 para o 5.º e 6.º anos são manifestamente insuficientes. Quando eu comecei a lecionar, a disciplina tinha uma carga horária de 3 horas semanais, divididas em uma aula de 2 horas e uma aula de 1 hora. Depois, a interrupção no final do 8º ano, direi apenas que é de todo lamentável que os alunos não possam, sequer, ter direito à opção. No ano passado, lecionei a uma turma do 9º ano (foram os últimos a ter o “privilégio”) e foi sem dúvida das turmas com quem mais gostei de trabalhar. O facto de terem já um percurso de 4 anos de educação musical, aliado a uma certa maturidade e uma grande motivação, permitiu desenvolver vários projetos de interesse musical”. O protocolo existente entre a EB 2.3 e o Centro Cultural de Amarante “é, sem sombra de dúvidas, uma mais-valia para ambas as partes. Tem proporcionado, a meu ver, uma colaboração extremamente proveitosa. Os nossos alunos do Clube de Música/Orquestra têm apresentado temas em conjunto com os colegas do ensino articulado, que têm contribuído para o enriquecimento musical de todos. Ora nada disto seria possível ou pelo menos seria bem mais difícil, se não existisse este Protocolo. A esse propósito, gostaria de destacar o bom entendimento que tem havido entre as direções e os professores das duas instituições, o que tem facilitado, e de que maneira, o trabalho desenvolvido”. 

Fazer vida de uma carreira musical 

“Fazer vida de uma carreira musical, hoje em dia, é muito difícil. Tirando aqueles que são por demais conhecidos e que enchem os coliseus e o Pavilhão do Atlântico, os outros estão altamente dependentes do mercado discográfico (que se encontra em crise, entre outros fatores, devido ao elevado preço dos CD’s o que também estimula o aumento dos downloads ilegais) ou do facto de serem os “músicos do momento” que toda a gente quer ouvir nas festas da sua terra. Com a crise que se encontra instalada, é fácil de perceber que os orçamentos baixam e o mercado não os absorve a todos. Por outro lado, acabam por não ter uma qualidade musical que lhes permita ter uma carreira suficientemente consistente ao ponto de vingarem num meio que tão depressa promove, como faz cair no esquecimento.” As redes sociais e a música: “Redes sociais como o Facebook, o MySpace, o Youtube, o SoundCloud e outras, foram a única “arma” que muitos músicos puderam utilizar para enfrentar um mercado e uma indústria que eram muito fechados em modelos comerciais pré-definidos e que deixavam pouco espaço à criatividade e ao aparecimento de novas propostas e novos valores. O mundo está cada vez mais “ligado na rede” e à distância de um clique. Aliás, segundo uma notícia vinda a público recentemente, os músicos cada vez mais hoje em dia apostam nas edições de autor através destas redes sociais, o que parece ter lançado numa profunda crise as grandes etiquetas discográficas”. O ídolo no mundo da música: “Não posso deixar de me assumir como um fã fervoroso e incondicional de toda a obra de António Carlos Jobim, de quem não me atrevo sequer a destacar uma só canção em particular. Acho que as canções dele, que foram cantadas pelos maiores cantores e cantoras, desde Sinatra a Elis Regina, davam uma excelente banda sonora para a minha vida”, finaliza Paulo Silva. 

 Texto: Ricardo Pinto

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