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sábado, 9 de fevereiro de 2013

NOSSA GENTE, NOSSA HISTÓRIA COM NUNO MEIRELES



“Sempre fui o primeiro a brincar com a minha condição e com as minhas limitações físicas”




Nuno Miguel Martins Meireles nasceu a 19 de dezembro de 1976, em Amarante. O entrevistado desta semana sofre de Paralisia Cerebral, fruto do atraso do parto que fez com que ficasse sem oxigenação. Isto provocou a morte de células cerebrais. No seu caso, a parte do cérebro afetada foi a parte responsável pela coordenação dos membros superiores mas também a parte que coordena o equilíbrio do corpo. Daí que não ande nem faça nada com as mãos: “Tudo o que faço sozinho (por exemplo escrever) é com os pés que o faço”. Conta que a “gravidez foi perfeitamente normal até aos 7 meses de gestação. O problema foi mesmo no parto, a mãe não sabia que qualquer toque ou movimento mais brusco poderia provocar o “rebentar” antecipado da bolsa do líquido amniótico e foi exatamente isso que aconteceu. Além disso, a minha mãe não fazia o trabalho de parto normal, ou seja, não fazia a dilatação necessária para o filho nascer, nem sentia as dores que uma mulher normalmente tem quando está para dar à luz. A bolsa do líquido amniótico arrebentou, a minha mãe sentiu um corrimento fora do comum foi ao hospital e disse que suspeitava que o bebé ia nascer. Os “profissionais” de saúde disseram que ela estava a exagerar e mandaram-na para casa; no dia a seguir foi de novo ao hospital e foi ai que eu nasci de parto normal. Deviam ter provocado o parto ou até feito uma cesariana no dia anterior. Nasci com 24 horas de atraso e as consequências estão à vista há 36 anos”, explica Nuno Meireles.

 É bacharel e licenciado em Engenharia Informática pela Escola de Tecnologias e Gestão de Felgueiras do Instituto Politécnico do Porto, mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e atualmente encontra-se a tirar o Doutoramento (1.º ano) também em Sociologia na Universidade do Minho.

Nuno Meireles diz que ao longo da sua vida de estudante – desde a primária ao superior – frequentou 8 escolas diferentes: “Sempre fui muito bem recebido pelos colegas, funcionários e a maioria dos professores. Uma das máximas que eu tenho desde que me lembro existir, é que para ser bem recebido também tenho de saber receber bem. Poderia haver a tentativa de alguns colegas – as crianças por vezes são “cruéis” – ou até de algum adulto de gozarem com a minha condição física mas eu despistava logo essas eventuais tentativas. Como? Simples, sempre fui o primeiro a brincar com a minha condição e com as minhas limitações físicas. Desarmava-os logo e talvez esse fosse um dos fatores que ainda hoje mantenho amizades desde pequeno, quando encontro ex-colegas na rua é sempre uma festa”, explica o entrevistado. Mas a sua passagem pela escola nem sempre foi bem aceite por alguns professores: “Se tive problemas na escola foram precisamente provocados por alguns elementos desta classe social. Tive alguns “exemplares” que só porque eu era “diferente” achavam que eu não devia nem tinha direito de estudar. Disseram-me isso na cara e fizeram tudo para me cortar as “asas”. Felizmente não conseguiram e o tempo (e a minha persistência) tem provado que eles estavam errados”, desabafa.

“ (…) enquanto a sociedade não nos aceitar como partes integrantes dessa mesma sociedade, enquanto não nos virem com outros olhos e pensamentos, vamos ter sempre problemas…”

Confrontado com as sucessivas queixas apontadas pelos deficientes motores no que às barreiras arquitetónicas diz respeito, refere que “mais que as barreiras arquitetónicas, as barreiras sociais/mentais são bem mais graves; não só para quem é deficiente motor mas para todos aqueles que possuem uma outra qualquer deficiência. Pois enquanto a sociedade não nos aceitar como partes integrantes dessa mesma sociedade, enquanto não nos virem com outros olhos e pensamentos, vamos ter sempre problemas. As barreiras arquitetónicas são apenas um dos reflexos da forma como a sociedade em geral olha (ou não olha) para a pessoa com deficiência. Mas também digo que enquanto a entidade que deviam dar o exemplo de integração, e falo do Estado (Administração Central) e das autarquias não cumprirem a parte deles, ou seja, cumprir a lei que diz claramente que não deve haver qualquer barreira arquitetónica em qualquer espaço público, não vai haver reflexos na sociedade civil. Quem devia dar o exemplo, não o dá”, acrescenta.

“Na minha adolescência ganhei o amor pelos livros, devorava livros atrás de livros e foi nesta altura que disse para mim que um dia ainda havia de escrever um livro”

Durante a sua infância era devoto dos livros de aventura como de Ana Maria Magalhães e da antiga Ministra Isabel Alçada, depois com o avançar da idade começou a ler autores “mais adultos como o Paulo Coelho e outros. Agora o que me interessa é mesmo um bom livro”. Corria o ano de 2007 e eis que surge a sua primeira obra com o titulo “A Vida e Eu”- um romance autobiográfico. Nele conta os seus primeiros 27 anos de vida, “sem quaisquer rodeios ou tabus”, expõe o autor. Mais recentemente, em 2011, lança a sua segunda obra – “Duas vidas, um destino”. É o próprio autor a apresentar-nos a sinopse deste romance de ficção: “Relata essencialmente a vida de dois jovens de classes sociais distintas e de zonas geográficas bem diferentes – Valpaços e Cascais – cujo destino quis que eles se conhecessem e ter uma vida em comum; muito por culpa da paraplegia que Igor (o de Cascais) adquiriu após um acidente brutal de viação. Neste livro, pretendo expor as diferenças que há entre classes sociais, a humildade de uma e os excessos extravagantes de outra. A problemática da rejeição de alguém que fica preso numa cadeira de rodas, mas que até então era idolatrado por todos (muito por causa do dinheiro que este tinha). Há também a abordagem do poder do amor verdadeiro que quando assim é, não tem limites físicos nem intelectuais que o impeça de se exprimir. Com as restantes personagens, e são muitas, abordo outros temas pertinentes para a nossa sociedade e que muitos teimam em vê-los como tabus. É o caso da sexualidade nas suas variadas vertentes, a infidelidade, os amores antigos, entre tantos outros temas que retratam muito bem a sociedade em que estamos inseridos”. Os seus trabalhos podem ser visualizados na internet: www.nunomeireles.net, ou ainda adquiridos na Livraria Zé, em Amarante.


“Para mim escrever com os pés é algo perfeitamente banal, nunca me vi noutra situação, por isso... Surpreendente será para quem me vê a lidar e a fazer o que faço com eles”

Diz que tudo o que utiliza é normal: “Nunca usei nada adaptado. Desde computadores fixos ou portáteis, telemóveis, tesouras, lápis (gostava muito de desenhar) ou canetas com que faço também alguns rabiscos (dar autógrafos, por exemplo)”. A sua vida de escritor faz com que tenha de se deslocar a vários pontos do país: “Já percorri grande parte do Norte de Portugal, entre os distritos do Porto (com maior incidência), Braga, Vila Real e Aveiro. Concelhos como Amarante, Penafiel, Marco de Canaveses, Felgueiras, Gondomar, Vila Nova de Gaia e Paredes (todos do distrito do Porto); Espinho e Aveiro (distrito de Aveiro); Braga e Guimarães (distrito de Braga) e ainda a cidade de Vila Real”. Nas suas viagens conta com o apoio condicional dos pais, da irmã e ainda da namorada Diana. Quanto a projetos futuros diz que “está na forja um novo romance que ainda não tem data para o lançamento pois ainda está a ser escrito, nem titulo. O que posso adiantar é que quero que em 2013 esteja cá fora. Depois tenho a Tese do Doutoramento para elaborar e gostava muito de encontrar um emprego que me pudesse dar estabilidade financeira e emocional (gostava muito de me sentir útil para o meu país e para a sociedade) que me permitisse pensar, em termos pessoais, noutros voos”, finaliza Nuno Meireles.

Texto: Ricardo Pinto


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