Etiquetas

sábado, 2 de fevereiro de 2013

NOSSA GENTE, NOSSA HISTÓRIA COM AMARO GONÇALO

“É uma tristeza ouvir um padre debitar palavras, que ele próprio não digere..”

Amaro Gonçalo Ferreira Lopes nasceu a 28 de fevereiro de 1966 em Eiriz, Paços de Ferreira. Desde sempre a sua paixão era o ensino: “Eu, desde que me lembro, dizia que queria ser professor primário”, confidencia o Padre Amaro Gonçalo. Quisemos saber junto de si como nasceu a vocação para seguir o caminho de Deus: “Na verdade, ser Padre foi uma possibilidade que enfrentei, a sério, só pelos meus dezoito anos. Até então, eu tinha um certo fascínio pela Igreja. Gostava muito de ir à Missa, e, por vezes, até em dias de semana. Fui leitor, acólito e catequista! Mas nunca julguei ter qualidades para ser Padre. Queria apenas ser um bom cristão, um amigo fiel a Jesus, um discípulo Seu. Como a maior parte das crianças, descobri Jesus, primeiramente na oração familiar, depois na catequese e, mais tarde, no convívio com as pessoas da Paróquia, onde nasci e cresci. Só mais tarde, depois do 11º ano, quando eu pensava ainda ser professor do 1º ciclo e frequentava para tal um Curso, é que me decidi a iniciar a minha preparação para o sacerdócio. E, na altura em que fui crismado, conversei com o Bispo! Ele ouviu as minhas razões e sentimentos e achou que eu devia pensar a sério no assunto. Frequentei então um ano o Pré-seminário (ia ao seminário de vez em quando, estando ainda em casa) e logo depois entrei no Seminário Maior, com 18 anos. Lá estive seis anos, até ser ordenado diácono, com 24 anos de idade”.


No seu primeiro ano de ministério sacerdotal, colaborou, a título pessoal, com o pároco de Frazão e Ferreira, em Paços de Ferreira. De 18 de outubro de 1992 a 20 de Setembro de 2008 foi Pároco de Amarante (São Gonçalo) e de São Veríssimo, estando assim, em Amarante, cerca de 16 anos. Está na Paróquia da Senhora da Hora, há mais de quatro anos.

“Quando cheguei, em 1992, o número de colaboradores pastorais não chegava a uma dezena e a paróquia estava num estado de anemia espiritual”

Retrata a sua estadia, em Amarante, como “tempos de grande paixão, de grande dedicação, de grande entusiasmo, em que procurei envolver a comunidade, de modo a torná-la viva, familiar, próxima, acolhedora, formada, formadora e reformadora, aberta ao mundo, comprometida com o meio, polo de atração e de irradiação pastoral”. Conta que “quando cheguei, em 1992, o número de colaboradores pastorais não chegava a uma dezena e a paróquia estava num estado de anemia espiritual. Ano após ano, a comunidade foi crescendo e amadurecendo”. Após a sua saída, vários são os paroquianos que ainda recordam as homilias do Padre Amaro Gonçalo. Para o Sacerdote, essas pessoas “permanecem no meu coração”, dizendo que as recorda nas suas orações. “Se deixei alguma marca nas pessoas e na cidade, só elas o poderão dizer. Eu posso dizer que cada uma das pessoas me marcou, de modo inapagável e impagável; posso dizer que aí estive, não de passagem, não de miragem, não a fazer turismo religioso, mas de corpo inteiro, de alma entregue, a todos e a cada um, como se aí tivesse de gastar toda a minha vida. A Agustina Bessa-Luís dizia que Amarante tinha um “bruxedo”, isto é, um encantamento, que não larga mais, quem, um dia, bebeu água do arquinho e atravessou o rio. Eu sinto, na alma, a força dessa paixão. E quando vou a Amarante, é sempre como se voltasse a casa, para uma visita à família. Ah, parafraseando ainda Pascoaes, eu posso dizer que «se não fosse Amarante eu não era o que sou»”, adianta o entrevistado.

“Se há dívida, é a de Amarante em relação ao esforço que fiz e ao legado que lhes deixei”

No entender do Padre Amaro Gonçalo, o projeto de construção do centro pastoral “foi importante para unir forças, para mobilizar vontades, para reunir esforços, para dinamizar a participação, para consciencializar e ampliar o sentido de pertença à comunidade e de serviço ao mundo. Foi uma aventura inesquecível, em que Deus realizou muito mais do que seria de esperar, em razão das minhas fraquezas. Estou muito grato a Deus, por isso”. Confrontado com as alegadas dívidas que foram contraídas com a construção desse empreendimento, diz que “toda a gente sabe que foi contraído um empréstimo de um milhão de euros (200 mil contos), para um prazo de vinte anos (2003-2023), metade dos quais estão praticamente transcorridos. Mas toda a gente sabe ou deve saber outras coisas: que a obra ficou por mais de 2 milhões e seiscentos mil euros (520 mil contos, para falar em dinheiro antigo). São contas que tenho ainda de cabeça. Portanto conseguimos, sob o meu governo pastoral, 500.000 € (100 mil contos) de financiamento do Estado e 150.000 euros da Câmara, sendo o remanescente em donativos dos paroquianos. Acresce que o modo polivalente de funcionamento do Centro Pastoral, tal como foi concebido, faz deste, não um peso ou um elefante branco, mas uma mais-valia pastoral e uma fonte de receita, perfeitamente à altura dos custos de funcionamento e financiamento. Se há dívida, é a de Amarante em relação ao esforço que fiz e ao legado que lhes deixei. Mas fi-lo com todo o gosto e não preciso que mo agradeçam. Tenho muita honra nisso e só a estreiteza mental e pastoral de alguns é que pode lançar lama, sobre a grandeza de um projeto, tão feliz para a Igreja e para a Cidade de Amarante. De resto, eu trocaria de bom grado, o pagamento da dívida de São Gonçalo, com a respetiva receita, pelos simples custos de manutenção que tenho na minha paróquia em relação às fontes de receita adquiridas”, esclarece o sacerdote.

“É uma discordância [em relação ao bispo], quanto à sua forma de pensar o lugar do Padre no Colégio de S. Gonçalo e o papel pastoral da Escola Católica, na Diocese”

Durante dois anos trabalhou no Colégio de S. Gonçalo, em Amarante- “eu sentia que a minha missão pastoral, em Amarante, podia ser potenciada e enriquecida, na articulação com o Colégio Diocesano de São Gonçalo, que deveria ser cada vez mais uma escola “de Igreja”, e não apenas uma boa escola “da” Igreja. O Bispo que me nomeou, Dom Armindo, por sugestão do próprio Monsenhor Clemente, tinha esse entendimento e esse projeto. E eu abracei-o com enorme paixão, até porque, como disse, a Educação era (e é e continua a ser), uma grande paixão minha, a que dediquei algum tempo formativo específico e que desejo ainda aprofundar. Estive dois anos, no Colégio, num tempo duro, belo e breve. Pelas suas caraterísticas, o Colégio é, de facto, uma grande comunidade educativa, com potencialidades fabulosas, para dele se fazer uma escola de qualidade, mas também uma comunidade eclesial, um instrumento pastoral, um lugar de formação e de crescimento de cristãos, para este tempo. Creio, por isso mesmo, que o Colégio nunca deverá deixar de ter um padre competente à sua frente, mesmo que numa direção mais colegial e participada. Isso não retiraria o espaço próprio dos leigos, que podem e devem ter, na direção, administrativa e pedagógica, um espaço próprio. Mas se o colégio é uma comunidade eclesial, como o dizem reiteradamente os documentos da Igreja, é importante a referência sacerdotal, que sinalize a sua natureza diocesana e eclesial e assegure a sua condução pastoral.” Face aos argumentos anteriormente apresentados, o entrevistado revela uma discordância em relação ao bispo responsável pelo Colégio, “quanto à sua forma de pensar o lugar do Padre no Colégio e o papel pastoral da Escola Católica, na Diocese. Aliás, ele sabe que não estou sozinho nesta posição. Apesar disso, pus sempre acima do que penso e desejo, a minha obediência e a comunhão com a Igreja, na qual me torno homem livre”. Em relação aos motivos que estiveram na origem desta mudança, salienta que “foram invocadas razões de superior interesse diocesano, para justificar a minha saída de Amarante. Não sou pessoa, de me agarrar aos lugares. Prefiro ser parte da solução, do que parte do problema. Quanto às Paróquias, apesar de tudo, achava que o essencial estava feito e que era importante dar lugar a outro, para abrir outras frentes, dinamizar outras áreas pastorais. Quanto ao trabalho no Colégio, estava apenas a começar. E sair naquela altura foi, a meu ver, um erro pastoral, de que felizmente não sou o responsável. Consola-me, sobretudo, a certeza de que “Deus escreve direito por linhas tortas” e que é sempre capaz de abrir um caminho novo, mesmo quando os homens, mesmo os da Igreja, torpedeiam os Seus projetos”, responde Amaro Gonçalo.

“O celibato é, no mundo, um sinal de contradição, como aliás, o é o próprio ministério sacerdotal”

Na opinião do entrevistado, “o celibato não pode ter um sentido “funcional” como se fosse uma condição prática, para uma vida mais disponível. Não pode ser reduzido a uma espécie de “castração” da afetividade, como se a sexualidade fosse um campo de contaminação do sagrado. Se o celibato tem algum sentido profético, é exatamente por lembrar à sexualidade humana, que a sua dimensão mais fecunda é a entrega, a doação, a relação, a comunhão interpessoal”, adianta o entrevistado. Mas afinal, em que difere o Padre do Homem comum? A esta questão Amaro Gonçalo refere que “dentro da Igreja, o padre permanece homem, com as suas qualidades e defeitos. Fora da Igreja, aquele homem permanece padre. Não alinho nessa espécie de esquizofrenia vocacional, separando dimensões (humana e sacerdotal) que, de facto, não se justapõem, mas se integram mutuamente. Ser padre é como ser «pai»”, esclarece.


A posição da Igreja face à atual conjuntura económica que o país atravessa

“Não se pode confundir entrevistas dadas por Bispos (ou por padres, como neste caso), com a posição oficial da Igreja, nomeadamente, através da sua Conferência Episcopal. Veja-se, por exemplo, a corajosa posição do Papa, na sua mensagem de ano novo: é um grito profético, um aviso à navegação, perante a deriva de um certo liberalismo social e económico que deixa o ser humano entregue às feras do poder financeiro desregulado. Vejo esta crise, em Portugal, como resultado de uma sucessão de erros, que não podem ser corrigidos apenas com «políticas económicas», sejam de que matriz ideológica for. O que está em causa é a urgência de uma conversão de toda a nossa vida pessoal e social à realidade do que somos e temos, e de uma imperiosa mudança de hábitos, que nos propicie uma vida mais simples, mais solidária, mais familiar. Importa reforçar os laços da família, como primeira rede de apoio social”.


"Não me envergonho do que penso e proponho. Não tenho medo de me expor à crítica"

Amaro Gonçalo partilha através das redes sociais e internet os trabalhos que vai realizando junto dos seus paroquianos.
No seu entender, sente que “não devo reservar, só para mim, o trabalho que faço, e afinal, também com a ajuda de outros. A partilha «On-line» é um sinal de comunhão na missão, sinal de abertura e recetividade. Sinal de que não me envergonho do que penso e proponho, sinal de que não tenho medo de me expor à crítica. Muitas paróquias, na diocese e fora dela, muitos padres e leigos, sobretudo catequistas, aproveitam os recursos pastorais que ponho à disposição. Outros dizem mal, mas não passam sem eles. Fico feliz, porque, deste modo, os frutos do trabalho têm outra amplitude. Eu também aproveito sugestões que recebo de outros (embora poucas, infelizmente) ”, confidencia. Em relação ao papel do padre, enquanto elo de ligação com a comunidade adverte que: “o papel do pároco é importante, mas não é o único, nem talvez o mais importante fator explicativo do distanciamento. Aliás, isso mesmo é confirmado em recente estudo sobre as identidades e expetativas religiosas dos portugueses. Mas, obviamente, é importante que o Pároco prepare e se prepare bem, para a comunicação audaciosa e afável da Palavra de Deus, deixando-se empenhar e afetar por ela. É uma tristeza ouvir um padre debitar palavras, que ele próprio não digere; é tremendo quando a fé parece mais um discurso pesado, do que um percurso de vida feliz”, finaliza.

Texto: Ricardo Pinto

Sem comentários:

Enviar um comentário