Somos um país de moralistas – ou seja, um país de pecadores. Cônjuges infiéis sermoneiam, sem corar, sobre as virtudes da autenticidade, dedo em riste contra os erros alheios.
Ditadores caseiros comovem as ruas com a sua larga visão da democracia.
A corrupção, como o inferno, é sempre culpa dos outros: as pessoas que utilizam continuamente o ‘empenho’, o ‘favorzinho’ e as relações sociais para conseguirem vantagens sobre os outros são em geral muito lestas a apontar as manhas dos outros – enerva-as que as ‘cunhas’ de outrem tenham maior sucesso que as suas.
Custa-lhes a crer que o êxito possa obter-se, simplesmente, por mérito – e, no entanto, isso acontece muito mais vezes do que em Portugal parece.
Por que será que tantos cientistas e artistas portugueses emigram e rapidamente ganham no estrangeiro o reconhecimento que o seu próprio país lhes negara? Não é só nem principalmente uma questão financeira – muitos destes portugueses prefeririam viver em Portugal, por razões afectivas, climáticas, patrióticas.
Os neurónios humanos não são slot machines – pelo menos os dos humanos que procuram fazer a diferença no mundo, e são muitos.
O que os empurra para as universidades, empresas e ateliês de outros países é a mesquinhez deste: o modo como toda a acção transformadora é amarfanhada e coberta de suspeições.
De alguém que cria alguma coisa de novo imediatamente se murmura que dormiu com alguém, ou é da Maçonaria, ou da Opus Dei, ou do partido X ou Y.
Se os alunos o preferem, é porque não é bom professor; se as suas obras de arte são aplaudidas no mercado internacional, é porque tem ‘conhecimentos’; e assim por diante. A inveja é criativa e conspiradora.
A criatividade é, aliás, muito incentivada pelo nosso sistema educativo. Demasiado incentivada: um dos problemas centrais da produtividade nacional é o da criatividade sem método nem disciplina.
Percebi-o na pele aos quinze anos, quando tive zero numa composição na Alliance Française pela boa e simples razão de que não a tinha concluído – e um texto que ficasse a meio do desenvolvimento e não chegasse à conclusão não valia nada. Eu não fora capaz de completar o texto na hora de que dispunha, porque me perdera na busca das melhores metáforas.
No liceu português estava habituada a ter boas notas por causa da ‘criatividade’ – e preocupava-me sempre e só com a bendita criatividade, o que levava a que nunca concluísse nada. No método de ensino francês, não queriam saber se eu pretendia fazer uma sequela do Livro do Desassossego – apenas queriam que eu demonstrasse ser capaz de levar uma ideia do princípio ao fim, num determinado período de tempo.
Esta aprendizagem foi fundamental para a minha vida.
As teorias da conspiração nascem na cabeça de conspiradores falhados e florescem socialmente com particular vigor nos países amaciados pela cobardia e pela resignação.
Estamos a pagar ainda hoje, no nosso modo de ser e de viver, a matreira neutralidade negociada por Salazar durante a Segunda Guerra Mundial. Somos uma Suíça sem relógio e drogada na inveja.
Mas enquanto se mantiver a distinção entre cidadãos de primeira e de segunda, este panorama não se alterará.
Expliquem-me por que é que os funcionários parlamentares têm de ter um estatuto especial, que os torna privilegiados em relação a todos os outros funcionários públicos. Por que razão retrocedeu o Governo quanto a esta classe de servidores do Estado, e os poupou da penúria a que obriga os outros? Não é assim que se educa o povo e se lhe dá alento para produzir mais e melhor. Antes pelo contrário.

0 OPINIÕES:
Enviar um comentário